Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Meus pelos,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Nasci com uma penugem que cobria todo meu corpo. Lembro de minha mãe me assoprando, os pelos levantavam e faziam cócegas. Eu ria, ela ria, eu espirrava, devia ser o ventinho. Ela me agasalhava. Os cabelos eram secados ao sol,  ficavam amornados e depois frios, quando eu voltava para a sombra. Um gorrinho mantinha o calor. As sobrancelhas desenhadas em arco um pouco mais escuras que os cabelos, os cílios da mesma cor protegiam meus olhos da poeira e seguravam as lágrimas que brotavam, deixando a paisagem chuvosa.
Numa certa idade, começaram a nascer pelos onde até então a pele era branca,  e novos desenhos se fizeram em meu corpo.

Entre a brisa, o calor, o frio, o vento forte, a chuva, a poluição, a neve, meus pelos se adaptaram às várias circunstâncias da minha história, da minha cidade, do meu país.
Tudo que era claro, macio, leve e sedoso deu lugar a uma cobertura escura, áspera, pesada e opaca.

Resolvi me depilar inteira, dos pés à cabeça.
Não quero assistir a um espetáculo que me desagrada.

Minha pele voltou a ser branca e macia. Minha mãe não está mais aqui para me assoprar, mas posso sentir seu hálito morno e começo a rir. Sei que ela está rindo também.
Quando sinto frio, me embrulho em roupas de seda.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

5 comments

  1. Isso chama memória implícita, corporal, afetiva, um sopro de amor que movimenta a penugem, uma carícia primordial, que tantas e tantas vezes ansiamos, porque o que sentimos é o arrepio dos pelos içados pelo estresse. O toque de seda, a mão amiga, segurara um bebê ! até um gato que ronrona em cima da gente já me ajudou

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