Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Minha voz,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Tenho 80 anos e  minha voz é a de uma menininha.
Meu documento pessoal e intransferível.

Lembro-me que quando comecei a falar meus pais se encantavam, um algodãozinho, diziam. Mais tarde, um cetim, ouvi de alguns homens. Uma harpa, orvalho, sinos, um rouxinol, ouvi no decorrer de minha longa vida.

Tudo que os pais falam marcam os filhos para o resto da vida. Minha mãe dizia que eu seria uma grande soprano, meu pai, que eu deixaria Ulisses  preso a mim pelo resto da vida. Eu não sabia quem era Ulisses, nem o que era uma grande soprano.

Cada pessoa que me encontra arregala os olhos e começa a rir. Sempre foi assim. Estou habituada. Sei que em poucos minutos tudo vai se transformar.

Muito culta e articulada, fiz cursos de filosofia, de psicologia, de artes, de gastronomia. Viajei muito, tenho imenso repertório para discorrer sobre diversos países, culturas, política, economia.

Falo várias línguas, inclusive o alemão. Uma linda boca pela qual passa o ar meticulosamente controlado para produzir a vozinha que só me trouxe dividendos. Tenho um marido apaixonado, uma multidão de amantes passaram pela minha vida.

Não preciso dizer que só encanto os homens, as mulheres me odeiam porque acham que tudo é truque.
Têm razão.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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