Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Minhas águas,
por Sylvia Loeb

Tenho um rio dentro de mim.

Suas águas percorrem cada reentrância do meu corpo, é o grande meio de transporte de tudo que ele necessita:  oxigênio, nutrientes, hormônios… e no seu movimento contínuo também elimina os resíduos que produzo, que não são poucos.

Uma das águas mais evidentes são as lágrimas, que brotam separadamente do meu olho esquerdo ou direito, uma de cada vez, dependendo do meu estado de espírito. Quando transbordam, sinto alívio.

Minha saliva aflora diante de objetos de arte. A cada vez que vejo um Modigliani ou ouço uma sonata de Mozart, babo. Carrego pilhas de lenços quando vou a uma exposição ou concerto.

Tenho um fluído que me é especialmente valioso, é o que banha e protege  meu cérebro e minha medula espinhal. É o liquido cefalorraquidiano. Amortece em até 97% os possíveis traumatismos, pancadas ou impactos. Cuidem do seu, assim como cuido do meu.

Meu suco gástrico anda se comportando mal; ultimamente jorra, de forma impulsiva, dentro do meu estômago produzindo um trágico desmoronamento. Não gosto nada disso.

Em compensação meu suco pancreático é gentil, não se manifesta enquanto o gástrico não sossegar.

Minha urina, ah! minha urina. Também cheia de nuances, é bastante caprichosa.
Com a coloração dourada brilhante do Topázio Imperial afasta a negatividade que me assola e ajuda a superar minhas muitas limitações. Nem quero comentar quando ela surge com a cor da Turmalina Negra.

Para aliviar, vou falar do leite, branco cheiroso, morno. Meus peitos intumescem  assim que um bebê se aproxima. Sempre tenho leite, para todos, a qualquer hora.

E a bílis? É a que me deixa verde de inveja, é a que me tinge quando viro bruxa.

O sêmen não é meu, mas foi fundamental para transportar os espermatozóides que fecundaram meus óvulos e me presentearam com três filhos e dezoito netos.

Meu líquido sinovial anda meio ressecado, ao invés de lubrificar minhas articulações, anda falhando. Resultado, estão rangendo e um tanto enferrujadas.

A linfa é tão complexa, que nem sei falar dela, mas sei de sua importância, pois qualquer problema que tem, incho feito fermento.

Meus suores me esquentam ou esfriam a seu bel prazer. Não tenho nenhum controle sobre eles. Dizem que é para controlar a temperatura do corpo. No meu caso, me deixam louca, mas ao menos, eliminam o álcool.  

Meu sangue é da cor que deve ser, vermelho profundo. Quando me corto, choro, pois não gosto de ver meu sangue derramado. Cada gota é importante para mim. Tenho 6 litros de sangue no corpo, num total de 60% de água, que é o maior componente dos meus fluídos.

Sou feita de água… e do quê mais?    

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

4 comments

  1. Corpo e alma, neuropsicofisiologia: termo acadêmico. Literatura do sentir: as emoções são corporais, nossas águas fluindo ou retidas, em avalanche, ou conta gotas, de saudades, de paixões, de alquimias. Sylvia dá vida ao corpo, vida psíquica

  2. “águas mais evidentes são as lágrimas, que brotam separadamente do meu olho esquerdo ou direito”
    Sylvia, adorei este seu texto, tanto que: ” lagrimas umedeceram o meu esquerdo e o direito conjuntamente”.
    Lindo.

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