Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Minhas mãos,
por Sylvia Loeb

 

 

 

Na parte final da extremidade do meu corpo chamada braço tenho uma mão. Do outro lado também, pois tenho dois braços.  Vou falar só de uma delas, pois são muito diferentes, quase não conversam entre si e quando uma lembra da outra, brigam. Talvez seja porque cuido mais de uma do que da irmã.

Falemos da esquerda: na extremidade dela brotam hastes delicadas, chamadas dedos, sinuosos,  sempre dançando ou tocando algum instrumento, preferivelmente harpa, de onde brota um som melodioso. As assim chamadas unhas são as que dedilham as cordas do instrumento. Rosadas e de formato ovalado. Tenho sempre vontade de chupá-las tal a beleza, mas me seguro, pois sei que ficariam enojadas. Cuido da mão esquerda em contemplação, hidrato-a, massageio-a com leite e mel. Ao dormir, embrulho-a em luva de seda no verão, e de veludo no inverno. Todo cuidado é pouco, cada vez mais bela com o passar do tempo.

O único senão é que é inútil. Não faz nada, é preguiçosa e indolente, além de muito mimada. Confesso, tamanha beleza desculpa tudo.
Sou culpada do ódio entre as irmãs, da rivalidade sem solução.

A outra tem os dedos grossos, os ossos imensos, a pele, de crocodilo, as unhas, verdadeiras garras retorcidas.  Desde sempre foi assim. No começo da vidinha delas me esforcei por tratá-las com justiça, enfeitava a mão das duas com anéis de ouro e pedras preciosas, mas com o passar do tempo desisti,  ficava grotesco.
O único ponto positivo é que ela é extremamente útil. Faz tudo o que desejo, nem preciso pedir. Lê meus pensamentos.
Espero que uma não massacre a outra.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

 

4 comments

  1. Final inesperado, como em outros textos da autora. Assim agimos, assim nos sentimos, o pragmatismo é feio, mas sustenta, a beleza é inútil, ou é útil para deliciar-se e suportar a feiura …

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