Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Minhas mentiras,
por Sylvia Loeb

Sempre menti, desde sempre, desde que comecei a falar. Nem sabia que era mentira o que eu dizia, depois descobri, pois me falavam, você é uma mentirosinha. Mais tarde, você é mentirosa, mais tarde ainda, você é muito mentirosa.  

Desacreditada, não conseguia parar de mentir, pra tudo, pra todos.

Jurava pra mim mesma que ia mudar, não adiantava. À primeira pergunta, mentia.

Muito mais tarde descobri que não queria que os outros soubessem de mim, não queria que soubessem NADA de mim.

Mais tarde ainda, descobri que, se soubessem de mim, iriam dar palpites, pedir explicações.

Descobri que não queria palpites.

Que não gostava de dar explicações.

Que gostava de manter segredo.

Comecei a escrever meus segredos em papeizinhos, que depois queimava e soprava no vento.

Parei de mentir.

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!


2 comments

  1. As mentiras protegem, mentimos aos outros, mentimos a nós, a resolução do conto dá o desfecho para o que parecia insolúvel, com os papéis ao vento parou de mentir, de ter que ser. Boa apreensão do que “não se deve”

  2. Cada leitor tem uma leitura muito própria, o que enriquece o autor.
    Você sempre acha um sentido no que lê, independente da intenção do autor.
    Isto é o que faz um bom leitor. Completa o texto com sua interpretação, é um co-autor.

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