Este artigo é parte do Clube dos Escritores

MORREU DE NOJO – em sete atos…
por Sergio Zlotnic

 

 

 

Problemas de cloaca em casa! Ralo entupido. Sifão quebrado. Refluxos… A circunstância obriga a que se reflita. Lembro-me de um evento antigo, familiar, traumático. Antes disso, duas sabedorias, seguidas de dois preâmbulos:

1- Se for pra encontrar uma barata, que seja às 11 hs da manhã. É sempre desagradável; mas, nessa hora, quando tudo está claro e o céu brilha, ainda há agilidade pra persegui-la. À noite, sombras acrescentam miasmas à operação. Tudo cresce na escuridão. Até a dor aumenta. O sol, ao contrário, descomplica e é ágil no chinelo.

2- O deus foi sábio! Não? Pois, vejamos. É com o pé que desgraçadamente pisamos em cocôs deixados nas calçadas da cidade, pelos cachorros e seus mal-educados donos. E é o pé justamente a parte do corpo que melhor se presta a infelicidades. Evidente: é o órgão mais afastado da alma. Donde: melhor pisar num cocô com o pé do que com a mão. Ou, pior, com o nariz; ou, pior ainda […] – não digo!

Conclusão: a alma se localiza nas cercanias do plexo solar. E flutua às vezes (quando hesita) entre coração e testa! Nem se discute.

3- Início da estória. Ele foi o mais enojado dos homens. Só pra dar uma ideia, alguns exemplos.

Em sua casa, logo na entrada, tirava sapatos e calças. Sapatos, porque as ruas são imundas. Muito justo! Calças, porque não se sabe nunca quem sentou antes de nós nos bancos das praças da cidade. Um mendigo urinado? Mas, e se for um rico empresário evacuado, tudo bem?

Em banheiro público, dava a descarga com a sola do sapato. Tipo um chute na parede. E não tocava maçanetas de jeito nenhum, usando pra isso guardanapos roubados em restaurantes (delito menor). Também não abria nem fechava torneiras com as mãos nuas – levava sempre consigo papel toalha nos bolsos. Ou os tais guardanapos. Desinfetava-se, a intervalos regulares, com álcool gel… Quase tacava fogo.

Quando alguém o cumprimentava, beijando-o no rosto, incomodava-se com os cabelos, se longos, que lhe tocavam cara e boca. Lavava-se bem depois disso. Não confiava na limpeza de perucas alheias. Preferia pessoas carecas. Sexo só com escafandro?…

4- Desenvolveu manias complexas, antes de migrar definitivamente para o hemisfério norte, região que considerava mais esterilizada. E, mesmo lá, caminhava com luvas brancas e máscara hospitalar, prenunciando Michael Jackson.

(Confesso a contragosto e com constrangimento que adotei alguns desses rituais, sobre os quais preferiria jamais ter sabido. O que nos leva à constatação penosa de que a assepsia contamina. Como peste. Epidemia… Paradoxo!)

Entretanto, por mais que migrasse, não houve sossego. Por toda parte encontrou pessoas – e, por consequência, colado nelas, vírus, burrice, miséria, cocô e xixi. O nojo assim o acompanhou. Nojo da humanidade! Ao se dar conta de que o mundo é cheio de gente desaforada. E principalmente que as pessoas são imensas baratas.

Morrendo de nojo, inaugura nova causa mortis. No enterro, agradecida, a medicina enviou coroa de flores. Não foi feio. Foi bonito.

5- O TRAUMA enfim [ou a lembrança antiga]:

Um dia, no tempo em que ainda não usava luvas brancas, cedo pela manhã, indo ao colégio, sonolento, num taxi, TL – VOLKSWAGEN, há 45 anos, mas lembro-me bem, coitado! Enfiou desavisada mão direita em infeliz reentrância côncava, próxima ao apoio para braço, na lateral interna da porta de passageiros, bem ao lado do dispositivo abrir/travar.

Apalpou. Explorando. Alheio. Inconsciente do perigo. Sentiu algo. Quase achou refrescante. Brincou ali com seus dedinhos. Até se dar conta, atrasado, de que alguma coisa não estava certa.

Bem… Então o tato percebeu, assombrado, pequenos sólidos boiando numa espécie de minicanja. Ecossistema! Caldo sustentável. Bioma…

Retirando a mão, às pressas, ouviu, estupefato, o obeso motorista revelar: Desculpa aí! Ontem um passageiro vomitou no carro. Eu limpei bem, mas não vi que no puxador da porta tinha sobrado essa poça.

Piscina de fluidos. Vencida. De ontem! E justamente com ele?!

Em seus dedos desesperados, grãos de arroz úmidos semidigeridos. E (perdoe a sinceridade) uma casca de feijão – hedionda, foi o adjetivo que lhe ocorreu. Identificou ainda um tipo de purê. Talvez de mandioquinha. Pequenos seres (minhocas brancas?) se mexiam, banhando-se na papinha.

Não haveria grito à altura do horror. Impacto sem nome. Nem palavra.

6- Em 1893, numa antecipação, Edvard Munch, o norueguês, pinta o famoso quadro, referindo-se justamente a esse futuro momento… Grandes artistas criam obras que se dirigem a acontecimentos ainda não ocorridos. Eis o semblante do conceito lacaniano de après-coup. A posteriori. No-só-depois. Antenados, grandes artistas dialogam com o que está ainda por vir… Munch criou o quadro para a cena do taxi.

7- Voltando ao século XX. Pobres dedos! Pobre cidadão! A vida no Planeta Terra é nojenta. Em suma. Não foi o primeiro trauma de sua dura vida. Nem o último. Outros muitos vieram. Viveu mais quatro décadas. Até o colapso final: – Não mais tenho o que fazer por aqui, pensou com seus botões. Partiu jovem ainda. Morreu de nojo!

Esperemos que o Além seja limpinho…

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SERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

 

Thiago Thomé

Thiago Thomé, psicanalista, é formado em Artes pela California College of the Arts. É editor de arte da Deriva, publicação independente de cultura e psicanálise, e também lidera a equipe de design da Questtonó.

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