Este artigo é parte do Clube dos Escritores

No trote,
por Bettina Lenci

 


 

 

Existem dois espaços neste mundo nos quais gosto de ficar sentada, por horas, sem fazer nada. Um deles é o saguão de aeroporto. O outro, o saguão de hospital.

Quando atrasa o avião, fico tranquila e esquecida da hora.  Quando no hospital, fico sentada, sem outra saída. Por razões diferentes, ambos saguões  estão sempre lotados de gente.

Nos filmes de antigamente, tais espaço de espera eram exclusivo das estações de trem, entre abraços e despedidas, corridas atrás do trem, acenando freneticamente até ele sumir.

Quando aparecia o  hospital, não havia saguão. Apenas longos corredores de cor verde claro brilhante, com cartazes de uma enfermeira ensimesmada com uma cruz vermelha no quepe e o dedo indicador na frente da boca rogando por silêncio.  

Hoje, aeroportos são imensas estruturas de metal envidraçadas e o que menos se vê é o avião e o abraço de despedida. Nos hospitais, para se encontrar o quarto onde está um paciente, passamos por inúmeros saguões, elevadores  sem mais botões visíveis porque ao entrar já toquei numa placa falante no andar desejado. Os corredores indicando as direções  de centros médicos cujos nomes complicados assustam uma pessoa sadia.

Aeroportos e Hospitais, hoje, iguais aos  enormes Shopping Centers da cidade,  não parecem com o que de fato são! Avião e paciente desaparecem nestes imensos espaços públicos.

Mas voltando ao porquê gosto de ficar sentada esperando em saguões de aeroportos e hospitais, é porque o mundo passa pela minha frente nas figuras das pessoas e é possível observar alguns detalhes comuns, como animais que pertencem a um mesmo grupo. Dá para imaginar de onde são, qual a sua classe social, seu cuidado pessoal, atributos e comportamento social.

Nestes anos de espera por um avião ou por alguém que ficasse bem de saúde, minha observação  recorrente é sobre  senhoras de idade, atrapalhadas com as  bolsas, um carrinho de nenê (vazio) e cobertor dependurado no braço.  

Estas senhoras, os tornozelos já bem mais largos do que o pé, costas expandidas, bacia avantajada, seios volumosos,  sempre andando atrás de uma mulher e de um homem, mais jovens, estes com uma criança no colo: claramente, a filha ou nora, filho ou genro, e ela mesma a avó que veio ajudar a ambos. Tanto na viagem quanto no hospital.

Lembro quando eu mesma, ainda jovem, carregava o meu nenê e minha mãe vinha atrás com a sacola do bebê e de mão dada com o neto que já andava , entregue aos seus cuidados. Quando só havia um lugar para  sentar, eu entregava o nenê para minha mãe, deixava todas as bolsas aos seus pés cansados e ia tomar um café.

Hoje o mesmo se passou comigo. Minha filha carregava meu neto e eu as sacolas  e empurrava o carrinho de bebê , o cobertor dentro tentando alcançá-la, seu passo  tão mais ágil do que o meu. Já dentro do carro, sentada no banco traseiro, seu marido ao volante, minha filha do lado, meu neto na cadeirinha, sorri!

 

Esse texto foi publicado originalmente no site Legado Vivo.

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BETTINA LENCI – Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.

2 comments

  1. O NOME DA ROSA, livro escrito por Umberto Eco, virou sim um belo filme. Concordo com o envenenamento por uma mídia medíocre e sem cultura. Me amedronta meus filhos e netos serem contaminados pela Internet, por uma vida não real e o pior, pensando que sabem tudo, ignorantes que são de tudo.
    Não sei se é bem o lugar mas te convido para minha exposição no Sesc Jundiai. Não consegui falar com você apesar dos esforços. Beijo

  2. Bettina, o que você relata veio para ficar, não tem mais jeito.
    Ou incorporamos, na medida do possível, ou ficaremos de fora de um trem que não vai nos esperar.
    Fiquei bem interessada nas escultural de Jeff Koons, embora não consiga apreciar seus cachorrinhos metálicos. Interesso-me mais a obra de Jackson Pollok. Obras que se materializam ou que se transformam, produzem novas obras. Acho isso fascinante, pois abriu-se um espaço, aterrador muitas vezes, onde não sabemos em que buraco negro vamos cair.
    As obras de arte materiais continuam em museus, lá poderemos rever a originais. Até quando?
    Não sabemos. Mas por enquanto é o que temos.

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