Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Nojo,
por Liliana Wahba

Não saberia dizer quando começou, mas a sensação de nojo a acompanhava em situações compartilhadas com seus semelhantes e em outras idiossincráticas.

Ter nojo de excrementos alheios, compreensível; de vômitos espalhados na mesa durante um jantar, também; de melecas em rostos sujos que se aproximam perto demais, certo; de animais esmagados com vísceras expostas, admissível; da mão que inadvertidamente tocou em substância escorregadia de cheiro putrefato e aparência gosmenta, quem não teria?

Havia ainda concordância parcial de pessoas a respeito, por exemplo, de nojo de sêmen fazendo-a transar somente com preservativos, de nojo de lágrimas, de peles enrugadas de idosos, de lagartixas – vai lá -, do roçar de uma mariposa …

O que dizer daquele nojo singular  e único, inexplicável, quando o estômago revirava e a boca retorcia-se em desgosto quando via um casal se acariciando, chuva saltitando no asfalto, açúcar queimado na frigideira, peixes pulando no mar, crianças comendo chocolate, cabelos ao vento loiros ou morenos, cheiro de avelã, cheiro de violetas, entre outros tidos como inofensivos ou prazerosos.

Talvez fosse dotada de uma sensibilidade excepcional, uma característica que se exacerbara anomalamente na seleção natural que nos dotou da sensação de nojo para evitar contaminação de doenças e de alimentos deteriorados. Nela, a iminência de alarmes sobrepostos invisíveis aos demais, acionava uma repulsa instintiva, espasmo e contorção interna sem trégua ou apaziguamento.

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.


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