Este artigo é parte do Clube dos Escritores Notícia de jornal - Sylvia Loeb - Sylvia Loeb responde

Notícia de jornal

Obituário

"Anjo Azul", Marc Chagall, Blue Angel, pintor, ceramista e gravurista surrealista judeu russo-francês
“Anjo Azul” de Marc Chagall

“Não sou mórbido e nem tenho tendência à depressão, mas confesso que não consigo descartar o jornal antes de ter lido o obituário, em “Cotidiano”. As histórias ali contadas dão certo romantismo à morte, grandeza à vida, que mesmo sem ter realizado grandes feitos, deixa uma contribuição não apenas para a família, mas para a humanidade. Já avisei a meus filhos que quero que escrevam para o jornal, quando eu partir, contando minha história, e peço ao jornal, do qual sou leitor assíduo há mais de cinquenta anos, que já reserve um espaço nessa seção, quando chegar a minha hora”.
Wesley Miranda (Itu, SP)

Ao ler essa nota, senti-me profundamente tocada. Acho que o Sr. Wesley tem toda razão. E inspirada por suas belíssimas palavras, resolvi já deixar escrito meu obituário, pois jamais se pode confiar absolutamente nos filhos, que como se sabe, são um poço de ambivalência. Nem no tempo de vida nesse plano; pode ser que amanhã já terei sido chamada. Deixo então minha contribuição para a família e para a humanidade, que sem dúvida estarão interessadas em meu depoimento, esperando que o jornal reserve desde já meu lugar nesta seção tão importante: “Casei-me cedo e desde sempre dediquei-me de corpo e alma à família. Abri mão de muitos prazeres mundanos, em verdadeira doação de amor, muito longe de qualquer sacrifício. Nunca senti que ser mãe é padecer no paraíso, embora achasse, por vezes, que me encontrava no inferno! Deus há de me perdoar pela blasfêmia, ainda mais depois da vinda deste papa Francisco, tão maravilhoso, que perdoa gays, divorciados e daqui a pouco, sabe-se lá mais o quê. Talvez até donas de casa arrependidas por aquilo que achavam ser sua vocação e que tenham problemas graves com seus maridos mulherengos, de quem gostariam de ter se separado. Entre bordados e o fogão, realizei-me como mulher. Jamais fiz plástica ou enfiei botox no rosto que meus pais me deram. Nasci e morrerei com a mesma pele que cobrirá meu corpo, diferentemente de outras senhoras que, não quero citar, seria pouco caridoso. Enfim, meu obituário está ficando longo demais, o jornal vai cortar. Gostaria porém, de contar um pouco mais de mim, pois é a primeira vez que alguém se dispõe a me ouvir, no caso, ler. Essa a garantia dos obituários, que sempre encontrarão pessoas curiosas pelas vidas dos outros, tais como o Sr. Wesley e eu. Uma confissão: um pecadinho, que tenho certeza, todos os leitores de obituários cometem – o júbilo de não ser eu que passou para o outro plano! Essa alegria, que procuro disfarçar, me acomete a cada vez que vou a um velório ou a um enterro. Ao sair, sinto alívio de estar viva, plena de energia, dezenas de projetos para o futuro! Lugares tristes me fazem bem. Caberá aos meu filhos cortar essa confissão pouco cristã, para que seja preservada a imagem de pessoa caridosa que todos têm de mim. Ou ao jornal, por falta de espaço. Deixo aqui meu depoimento que, espero, seja uma contribuição para a humanidade e para minha família, a doação de uma mulher.

Joana do Nascimento.

 

Sylvia Loeb

Sylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com, acesse sua página no Facebook SylviaLoeb_escritora ou escreva para o e-mail [email protected]

 

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