Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Noticiário policial,
por Eder Quintão

 

 

 

Faleceu em Belo Horizonte, Minas, em 8 de julho de 2014, o Sr. Selecinho Brasileiro Jr., aos 90 anos de idade, assassinado em circunstâncias brutais com sete tiros por uma quadrilha internacional. Segundo a polícia suspeita, essa é de origem germânica, especializada em roubo de bolas de futebol, mas que vinha há muito lavando dinheiro na produção de automóveis populares de marca Gol, ou Fusca, concorrente da marca italiana Fiat, que também havia atentado contra o Sr. Selecinho Brasileiro Jr. em 1982 quando atingiram-no com três tiros que o deixaram manquitolando desde o incidente. Como este senhor andava armado para se proteger contra ameaças de um grupo contraventor uruguaio, atuando no Brasil desde 1950, quando com dois tiros alvejou seu pai, o Sr. Selecinho Brasileiro Senior, teve Júnior, em função da experiência paterna, a chance de disparar um tiro, infelizmente insuficiente para afugentar os assaltantes e salvar-lhe a vida neste episódio, aliás muito semelhante ao que ocorrera com seu pai em uma armadilha num subúrbio do Rio de Janeiro, conhecido como Maracanã, conforme relataram familiares à reportagem no dia de ontem.

Nota expedida pela Secretaria de Segurança Pública do Estado justificou a necessidade de autópsia, apesar de ter sido óbvia a “causa mortis”, e de o crime ter sido testemunhado por considerável número de pessoas, inclusive pelo fato de a imagem ter sido transmitida por câmeras gravadoras que cercavam o local ao entardecer, e que não estava ermo. As testemunhas participavam de um ritual religioso de uma seita de fiéis habituados a pão e circo que acreditam ascender aos céus se cumprissem uma sexta promessa e aos gritos fanáticos em coro “Hexa virá”! “Hexa virá”, mas que infelizmente, notou nosso repórter, curiosamente recusavam-se, por ignorância ou superstição, contar até sete. Fato é que a despeito dos clamores da multidão nenhum milagre ocorreu no local aonde provavelmente ansiavam pela vinda de algum messias salvador pela sexta vez, deduziu a reportagem, evidentemente muito mais envolvida na descrição detalhada do crime perpetrado.

As testemunhas relataram com perplexidade a sanha dos assaltantes que atingiram a vítima com quatro tiros iniciais implacáveis, em sequência fulminante, no curto intervalo de uns dez minutos. O choque provocado foi de tal ordem que manteve todos em sepulcral silêncio, atônitos, e de tal forma deprimidos que prontamente cessaram a louvação religiosa “hexa virá”.

Segundo os médicos legistas, o historiado, a despeito de gravemente ferido, conseguiu manter-se cambaleante por exatos 90 minutos, fato inusitado nessas circunstâncias, mas explicado por terem todos os tiros atingido o baixo ventre, assim, capazes apenas de atordoá-lo, piorar a crônica dificuldade ao caminhar que já vinha de longa data, e a gerar choro convulsivo sem, entretanto, deixá-lo totalmente inerte, apenas inexoravelmente confuso e perplexo. De fato, segundo o laudo de autópsia a que este repórter teve acesso no IML local, todos os tiros foram bem-sucedidos, mas perfuraram órgãos não vitais, a despeito de um deles, provavelmente o primeiro – por ser o único capaz de provocar complicações mais contundentes – ter atingido em cheio seus genitais. Supõem os investigadores que a consequência dessa emasculação prematura deve ter sido a inércia na resposta do futuro cadáver ao ter sacado e disparado a arma com sucesso uma única vez e apenas após o sétimo tiro de que foi vítima.  

Embora o saudoso seja pranteado por imenso número de amigos na terra natal, não sabemos ainda quantos sócios majoritários nos negócios esportivos, que representam sua empresa na Argentina e na Holanda, comparecerão ao funeral; teme-se que em considerável número. Entretanto, essa reportagem lembra aos leitores que, segundo relatos policiais em anos recentes, ele vinha mantendo ligações telefônicas e pela internet com uma quadrilha notória no desvio de dólares para Miami sob a forma disfarçada de “assessoria internacional”, e que ainda é presidida por um cidadão, seu sogro, ex-campeão olímpico de natação, de antecedente altamente suspeito pela simpatia com envolvidos na prática de torturas, na época do regime militar brasileiro. Essa acusação, divulgada recentemente na imprensa escrita, pode ter tido influência negativa em nosso protagonista em anos recentes, a ponto de ter restringido a agilidade na resposta ao ataque de que foi vítima e, com isso, contribuindo para seu infortúnio no episódio do hexa.  

A polícia, contatada até agora, ignora a motivação exata para o crime e o paradeiro dos criminosos, sabendo apenas que, sendo todos estrangeiros que falavam apenas alemão, já devem ter abandonado o país. Entretanto, os agentes ouvidos suspeitam de uma conexão em maior escala porque foram interceptadas ligações em que se falava em holandês sobre contrabando de bolas de futebol e, em uma delas, holandeses conversavam com um parceiro em Buenos Aires de codinome “Maradona”, mas que obviamente não era o famoso e louvado jogador argentino. A suspeita ainda maior para a atuação de uma rede internacional em grande escala é a de envolvimento também de chilenos, mexicanos e colombianos, todos desafetos recentes do biografado, segundo um dos familiares, chamado Felipe, ou meramente Felipão para os íntimos, mas que, visivelmente transtornado, negou-se a fazer outros comentários, ou sequer informar o sobrenome à reportagem. Essa suspeita é reforçada por ter sido já descoberto que o falecido teve dificuldades de relacionamento recente com pessoas dessas nacionalidades que também participam em comércio de bolas de futebol. Além disso, um sócio de um de seus sócios no empreendimento é de origem inglesa, residindo na Suíça, tendo sido autuado recentemente por comércio ilegal de bilhetes para eventos esportivos sob a tutela de uma senhora chamada Fifa, sobre cuja hombridade pouco se sabe, mas muitos desconfiam envolvida em subornos de diversos tipos. Curiosamente o cidadão acabou sendo processado nos Estados Unidos e cumpre pena, fato inédito para quem foi até governador do estado de São Paulo.

O conhecido advogado, Dr. Parreira, falando em nome da família do pranteado, descarta qualquer envolvimento seu com atividades ilícitas considerando que sempre teve um nome a zelar, dedicado a atividades apenas políticas, contribuinte assíduo de um partido político, embora tenha se negado terminantemente informar qual.

Ao fechar essa reportagem a família do desafortunado ainda discutia o destino do corpo, se para enterro ou cremação. Isso, deduziu a reportagem, se deveria à óbvia preocupação dos familiares com eventuais manifestações que pudessem ocorrer em locais públicos tendo em vista a conexão política do extinto.  A reportagem retirou-se também em respeito à comoção emocional desse parente, Sr. Felipe, que, além de soluçar convulsivamente, batia os punhos sobre o peito em evidente demonstração de “mea culpa” que constrangia os circunstantes. Entretanto, a reportagem surpreendeu-se por não ter conseguido obter qualquer informação sobre o tipo de relacionamento nos negócios, ou o grau de intimidade do falecido com o parente Sr. Felipe, e deste com negócio irregular de bolas de futebol que justificasse sua atitude.

Instado a se manifestar, o senhor delegado, Dunga, que preside o inquérito, mostrava-se igualmente abalado pela violência e o inusitado da ocorrência, porém, não sem antes informar à reportagem que caso semelhante, por incrível coincidência, havia sido investigado pelo próprio pai, também delegado de polícia, nos idos de 1950 no sítio conhecido como Maracanã. Aquele caso foi arquivado após quatro anos de investigação infrutífera: ficara notório pela tentativa de linchamento de um senhor chamado Barbosa, até a época considerado habilíssimo receptador de bolas. Esse fora, com o passar dos anos, exonerado à falta de provas legítimas em que os dois perpetradores da ocorrência, de origem uruguaia, abandonaram o local e seus paradeiros persistiam ignorados, mas os nomes, que soam a mafiosos (Esquiafino e Giguia), permanecem lendários no país vizinho chamado Uruguai. Consta que tais bandidos estavam sob o comando de um arrogante criminoso com várias passagens policiais por roubo de bolas, conhecido no submundo da ilegalidade como Obtuso Varíola – certamente nome fictício de guerra – presunçoso, frio, loquaz, gesticulador, capaz de eliminar sem piedade quem não cumprisse à risca as ordens peremptórias impostas em regime de terror generalizado no comando de uma quadrilha de onze participantes.  

Adiantou também o Sr. delegado que quatro anos é quanto leva habitualmente para solucionar este tipo de inquérito. A propósito, recordo-me que o Sr. Barbosa era de cor negra e que o episódio de que foi vítima, curiosamente, ocorreu 62 anos após a abolição da escravatura no Brasil, época em que o racismo era aqui ainda cometido à solta, mesmo que sob os mais variados disfarces e a maldosa ironia consubstanciada pela emissão de chistes obscenos. De qualquer maneira, este repórter salienta a estarrecedora coincidência de que, 64 anos após o episódio de 1950, a expressão “raça negra” foi, finalmente, varrida de nosso vocabulário, substituída elegantemente pela de “afrodescendente”, que o refrão “diga não ao racismo” passou a ser declaração de princípios, divulgado em cartazes em cerimônias esportivas nacionais e no estrangeiro, mas que com tais mudanças de hábitos sociais perdemos infelizmente a oportunidade de homenagear a “pérola negra”, o divino controlador de pelotas que carregava o nome de Leônidas, general espartano. Lamentável que o Srs. Barbosa e Leônidas não tenham sobrevivido para testemunhar o caso funesto aqui relatado por terem atuado exatamente no meio desse período de transição bastante instável de nossos costumes sociais inaugurado tardiamente em 1888, mas finalmente muito invocado em 2014, quiçá perenemente.

O que é irônico nesse tormentoso caso é o fato de ter sido perpetrado por onze teutônicos, altos, fortes, esguios, cheios de si, ágeis, orgulhosos de sua tribo, contra o líder do grupo de afrodescendentes, humildemente acostumados a viver submissos, dominados por incurável complexo de inferioridade em relação aos que, em pouco mais de meio século, alardeavam ao mundo pertencerem a uma raça inequivocamente superior, segundo apregoava seu líder máximo, messiânico – embora bastante caricato e patologicamente autoconfiante -, que só foi horrivelmente imprudente ao tentar subjugar pela força outras raças, ditas inferiores, que circundavam seu inviolável santuário. Maior ainda a ironia de se testemunhar esses cavaleiros louros portando cartazes denunciadores da abjeta política de exclusão que era emblemática do preconceito racial praticado, com todo empenho e ousadia, por seus pais e avós sob aquela desgraçada liderança.

 

PS: passados quatro anos deste episódio constrangedor alguns de seus remanescentes ousaram ainda partir para São Petersburgo (antiga Leningrado) tentando se recuperar do vexame de 2014. Aproveitamos para lhes desejar bom augúrio pois nos recordamos que há exatos cem anos os insólitos cavaleiros germânicos executores daquela tragédia futebolística foram fragorosamente batidos em outra lide na qual usaram armas de verdade e gás lacrimogênio. Que as lágrimas de 2018 sejam agora profusamente derramadas por eles.  

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EDER C. R. QUINTÃO – É graduado em Medicina pela Escola Paulista de Medicina desde 1959, doutor em Endocrinologia, comendador da Ordem do Mérito Científico pela Presidência da República do Brasil, livre-docente de clínica médica, professor, pesquisador, membro da Academia Brasileira de Ciências e avô orgulhoso de três netos. “São o mais importante feito do meu CV”, segundo ele. Escrever não entra no CV, é paixão.

2 comments

  1. O que eu pensei!

    Pensei que essa alegoria da copa – das copas – poderia ter sido lida pelo autor nalgum sarau. Mas em seguida me dei conta de que a voz dele está inteiramente embutida no texto. Que linguagem! São jargões [antigos] do jornalismo [criminal e futebolístico], recheados de fatos históricos – e ironias. E ainda: adjetivos cheios de precisão. Bom augúrio pra nós!

    ps- à guisa de esclarecimento: o texto é sonoro per se!

    ps2- utilizamos a expressão ‘à guisa’ inspirados pela leitura [recente]! o mesmo se aplica a ‘per se’.

    ps3- utilizamos acima o plural majestático inspirados pela mesma musa [antiga que canta]!

    Ps4- canta aqui – como acolá.

  2. Eloquente, loquaz, pleonástico, verborrágico, como sói acontecer com repórteres policiais e futebolísticos.
    Como um bom Datena, nos leva à cena do crime.
    Ficamos consternados com o destino trágico da vítima e igualmente consternados com a teia urdida ao redor de tão trágico acontecimento que, tal qual um pesadelo do qual não conseguimos acordar, continua a nos perseguir diuturnamente.

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