Este artigo é parte do Clube dos Escritores

O cara,
por Bettina Lenci

 

 

 

O Cara me ama e odeia, ri da minha cara. É mentiroso, sem educação, sensibilidade zero.  Usa a palavra em profusão, mas não fala; é um cartunista, um fotógrafo, piadista, escritor, músico, saudosista, técnico e muitas vezes, um boca roto. Às vezes um senhor (a) de idade, solitário. O CARA espalha-se pelo mundo, subentendo-se com assuntos cuja intenção é uniformizá-lo e equalizar a pobreza de espírito. Ele não pensa e não quer ser pensado. Ele tem uma plataforma (esta palavra me remete à guerra onde aviões supersônicos aterrissam nas curtas pistas dos porta-aviões. Se errar, ao levantar voo ou aterrissar, cai no mar!) que nos guia, queiramos ou não, com ou sem vontade de sermos guiados. Ilude-nos perigosamente!

Descobriram de quem se trata aqui? Caso não, você não está no Face! Você no Face? Se a resposta é tô, então você já está irremediavelmente perdido de amor por ele!

Estar ou não no Face é a invariável pergunta para quem não tem a menor vontade de se comunicar com aquele a quem perguntou. Caso sim, caso não, tanto faz, a conversa morre ali na esquina do encontro: ambas as pessoas estão no piloto automático, como se diz, inconfessavelmente cansados. Cansados das redes, cansados de se comunicar, cansados de esperar que os supostos amigos lhe retornem, mas que não dão a menor bola para o “amigo” que lhes mandou uma careta, um amém, flores, informações de última hora e muitas visitas ao passado ou ainda do seu passado!    

Eu passei dois dias e duas noites em claro, no início flertando com O CARA, mas depois cai na armadilha da paixão. Enlouqueci. Não dormia, emagreci, sonhava com O CARA. Deixei de falar, de sair para o cinema, e o melhor de tudo, descobri que tenho milhares de amigos. Achei-me única! Descobri o que pensava gente muito importante e passei a compartilhar minha inteligência e conhecimento para os meus milhares de amigos, a mensagem acompanhada de um juízo de valor sem necessidade de expressá-lo, pois muito poucos estão interessados em conhecê-la. Um leve toque era suficiente para mostrar ser eu uma pessoa informada e cidadã do mundo globalizado. Foi assim que me tornei uma ajudante e aliada do Zuckerberg ao espalhar, indiscriminada e irresponsavelmente, conceitos a cada lar, cidade, estado, país, continente.

Descobri a que veio a expressão “tudo junto e misturado”! O junto (meus milhares de amigos) e o misturado (nada nesta minha vida fazia mais sentido).  Eu havia perdido a noção do espaço e do tempo, além do meu namorado que se encheu da minha falta de atenção para com ele… uma pessoa que refletia em silêncio e só emitia um conceito quando queria trocar ideias, – com palavras e voz ,- comigo. De fato, eu já tinha sido uma pessoa que trocava ideias! Depois que conheci O CARA, passei a ser um viciado em falsas amizades, em informações absolutamente desnecessárias – (tipo como não derramar o leite depois de cortado o pontilhado para despejá-lo no copo. Quer saber? Vire o pacote com a abertura para cima. Sai sob forma de uma fonte!)- e, mais grave do que o resto, comecei a passar informações meio mentirosas, falsas ou truncadas.

Descrevi ao meu analista o resultado do meu vício ao que ele respondeu que este é o mundo contemporâneo e que fizesse a escolha: ficar ou sair, pois pela metade não é possível usar O Cara. É uma droga como a cocaína. Simples assim! E daí? Para onde vamos? Estamos falando em ficção científica tomando como fato real o abrutalhamento da Humanidade?  Virão extraterrestres nos pedir satisfação por ter invadido o seu universo com informações da nossa vida no século XXI, ambíguas e ambivalentes? (Por gostar de ficção científica, acho que eles já ultrapassaram, há muito, o estágio da nossa comunicação falha de hoje como se pode constatar no filme A Chegada. Como nós ainda não sabemos ler o futuro, vamos aguardar!).  

Saí do consultório com muito medo, este sentimento sadio que me fez voltar a pensar por conta própria,  apropriar-me novamente da reflexão e dividi-la com poucos amigos de carne e osso. Voltei a ser eu à procura de mim e do tempo que perdi conversando com O Cara cujo FACE desconheço, convicta de que nosso isolamento e individualismo exacerbado é uma das consequências de estarmos tapando o fato com uma peneira furada.

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BETTINA LENCI – Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.

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