o drama do presente - adília belotti - o melhor dos 50 - fifties mais

O drama do presente

Minha interminável lista de presentes continua circulando comigo. Ando com ela pra baixo e pra cima e até gosto quando o trânsito me obriga a um pitstop num farol para reavaliar as opções que fui anotando numa folha de papel independente, extra agenda, já lotada de outras listas (menu da ceia, opções de reveillon, agendamento de beauté para as festas, rol de roupas para as férias).

Todo mundo reclama dessa tarefa e eu também. Mas tenho de admitir: gosto do Natal pacote completo, inclusive das listas. Algumas poucas semanas antes, sento pra enumerar as pessoas a quem quero dar uma lembrança. Bufo um pouquinho, mas acabo me entretendo com a tarefa porque ela me faz rememorar muito do que aconteceu durante o ano. Dessas recordações é que brotam ideias e cada pessoa é presenteada a partir de um encontro, um carinho, uma risada, uma tristeza, uma saudade que nos aproximou, nem que tenha sido por um único dia dos 365.

Gasto mais tempo do que posso escrevendo a mão nome depois de nome. Alguns me tomam longos minutos porque a história que nos uniu é carregadinha de emoções. Outros me roubam apenas um sorriso, outros rendem quase uma choradeira. A lista não é longa não — concordo que os excessos são politicamente incorreto inclusive no reino dos presentes. O ritual só fica comprido pelo processo que implica. Quem me flagra nessa hora, pode até me julgar em surto. Um surto que eu curto, pode crer.

Escolher o presente exige atenção para decifrar desejos do outro, entender seus prazeres, rever seu estilo. É preciso puxar da memória coisas ditas lá atrás por ele ou sobre ele pra chegar ao mimo que seja querido e bem vindo. Presente também serve para mandar recados. Eis aí uma boa hora para palpitar na vida alheia trazendo para a pessoa alguma coisa que você acha estar faltando.

A tia gorducha que gostaria de ganhar marron glacê, quitute que a transporta para os bons tempos, talvez se surpreenda com uma blusa mais decotada que revela ao mundo um colo delicioso, escondido por décadas do olhar alheio. Ela vai ganhar de presente a chance de se descobrir matreira, como se dizia na sua época. O sobrinho que todo ano recebe uma bola de futebol, agora, vai ser agraciado com um MP3 (será que ainda existe?!) recheado de MPB, perfeitos para iniciar uma amizade com figuras emblemáticas tipo Tom Jobim. O marido a quem todo mundo dá vinhos, charutos, livros pode merecer a chance de experimentar o deleite de uma massagem ayurvédica, por que não?!

O inesperado, a surpresa apontam para um ano novo renovado.

Tem também o presente simbólico. Minha mãe, por exemplo, avó de mais de 30 netos, resolveu natais atrás pintar com as próprias mãos canecas daquelas grandonas. Começou em outubro e foi escolhendo as imagens para enfeitar a porcelana, com muito humor, dando a cada peça a cara do neto. TODOS adoraram. De outra vez, ela fez a alegria de uma vendedora da Lacoste — adquiriu uma camiseta polo para cada neto, variando cores e modelos. O discurso de entrega disse que pretendia com isso organizar um time para que juntos todos jogassem o jogo da vida unidos. Esse ano, mandamos bordar fronhas brancas com frases que escolhemos para servir de conselho aos trinta netos. A seleção das mensagens foi uma farra.

Na casa de uma amiga, há um prólogo antes de se entregar os presentes. Quem dá tem de traçar o perfil do amigo secreto a ponto de que ele se identifique. O ritual tem efeitos interessantes! Outra metodologia, praticada na ceia de uma prima, presenteia cada convidado com uma palavra retirada por sorteio logo na chegada à festa. Ano passado tirei perdão e sabe que passei o ano todo pensando nessa virtude tão difícil de por em prática.

No Natal de outra amiga as crianças é que ficaram com a tarefa de dar presentes, colhidos como herança na multidão de brinquedos que em geral elas acumulam. A turma dos pequenos fez o papel de Papai Noel numa escola da periferia.

Faltam só alguns dias e o comércio está pegando fogo. Ainda tenho de encontrar alguns presentes. Já me divertir bastante e passei a limpo 2013. Estou preparada para virar o ano com a certeza que esse que passou valei a pena. Feliz Natal pra nós todos.

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