O ninho vazio, as cores da Suvinil e como encolher depois dos 50

Um amigo jornalista precisa de um “personagem” para uma matéria. É assim que a gente define as pessoas que aparecem nas reportagens jornalísticas que são só gente comum, contando histórias, suas histórias. Eu, ao contrário de tudo que costumo fazer, digo sim. Quase me arrependo. O vídeo sai. Vocês vão ver lá embaixo. É um branded content para a Suvinil, que decidiu falar de cor, por meio de histórias de pessoas comuns em várias fases da vida, das mudanças pelas quais passaram e de como, nesses contextos todos que percorreram, escolheram as cores dos lugares onde habitaram. A ideia é bonita…

Mas eu queria falar de nós, que temos mais ou muito mais do que 50, desse momento que estamos vivendo…queria falar de mudanças.

Dizem que estamos sendo convocados a reinventar a velhice e, de fato, sinto que estamos a cada dia descobrindo quem somos. Vivemos cheios de verdades provisórias, prontas para se desfazer no dia seguinte, no instante seguinte. Ninhos vazios, vocês hão de concordar, são gatilhos existenciais! 🙂 Você sabe onde eles começam: os filhos saem de casa e o cachorro morre, como diria o rabino sábio. Mas não faz ideia de como percorrê-los. E as fórmulas que eventualmente tenha herdado não parecem mais conversar com a pessoa que você se tornou. Ou vem se tornando….

Acho que somos os reis do gerúndio! É assim que ando me sentindo! Até pensei em fazer uma camiseta amarela imitando a frase: under construction, sorry for the inconvenience!

Somos, sim, inconvenientes. Vamos aos trancos e barrancos nos preparando para extrair o máximo da vida por mais 20 ou 30 ou 40 anos ou para não acordar amanhã de manhã. Os dois cenários nos são oferecidos. Não, depois dos 50 ou 60 ou 70, e ao contrário do que imaginávamos, o mais prudente é abandonar as certezas, guardá-las com cuidado na gaveta, junto com as cartas amarelas, as fotos com beiradinhas brancas, os cachos de cabelos dos bebês. Nosso tempo, esse tempo, pede flexibilidade. Meu palpite é que esse é o nome do nosso jogo, não sei se concordam…

O fato é que os filhos saíram de casa e decidi que era hora de mudar. Decidi encolher. Nos próximos e últimos anos, quero viajar mais leve, literal e metaforicamente (pensem nos nossos joelhos!). Deveria ser simples. Mas não é: encolher exige um colosso de determinação. Um zoom naquilo que de fato importa. Um tremendo exercício de…despojamento! Do que é mesmo que precisamos para viver? Com um mínimo de elegância, claro! Meses respondendo a essa pergunta, meses escolhendo: isso ou aquilo? Meses escavando cada cômodo da grande casa onde criei meus filhos buscando aquilo que eu iria colocar na minha nova mala.

Você vai encolhendo em camadas. Joga fora, doa, vende a primeira camada e acha que, ufa, deu! Nada! É uma cebola sem fim! Por que a gente guarda tanta coisa afinal? Sim, algumas heranças você guarda. É preciso conseguir se definir na sua nova vida e boa parte de mim eram aquelas memórias.

Li em alguma reportagem um designer falando de seu próprio apartamento: “aqui cada coisa teve que conquistar seu lugar”. No final de tantas escolhas, para mim sobraram aquelas coisas, móveis e objetos que, de fato, conquistaram seu direito de estar na minha vida recém-nascida.

O apartamento onde decidi morar nessa fase “malinha de cabine”, de rodinhas, mais leve e mais fácil, era da minha mãe. Mas precisava virar meu! Pus abaixo. A Grande-Mãe abençoe os arquitetos e engenheiros que conseguem transformar paredes apertadas em luz e espaços em branco! Couberam heranças e memórias (em alguns momentos, sinto o perfume dela no ar! Eram rosas!), mas tem muito lugar para eu ainda me surpreender! Neles, eu me ajeito todos os dias. Rumo a uma nova história!  E, sim, tudo é branco!

6 comments

  1. O texto chegou para mim, na hora em que eu precisava dele. Foi como se eu falasse, narrasse, e “alguém” me escutasse. Um presente. Gratidão!

    1. Eliane, esse é o melhor comentário do mundo! Mas acho que é porque esses temas estão por aí, constelados, apenas esperando a gente entrar neles….bjs

  2. Não sei porque ainda me surpreendo com você! A entrevista está ótima e o texto, acho que todas nós nos identificamos !!!!!
    É como ouvir falar de nós mesmas…..

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *