O Romantismo, Brahms, Clara Schumann e o cinema - Leo Forte - O melhor dos 50 - fifties mais

O Romantismo, Brahms, Clara Schumann e o cinema

Por Leo Forte

A ideia geral do Romantismo é que certas realidades só poderiam ser captadas através da emoção, do sentimento e da intuição. Por essa razão, a música romântica é caracterizada pela maior flexibilidade das formas musicais e valoriza mais o sentimento do que a estética. O Romantismo, tanto na música erudita quanto na literatura, na filosofia e nas artes plásticas, corresponde ao período que se convenciona classificar entre o ano de 1815 até o início do século XX. 

Quando Johannes Brahms nasceu em maio de 1833, em Hamburgo, portanto, o romantismo na música já tinha inspirado:  Beethoven, Paganini, Rossini, Schubert, Mendelsschon, Chopin, Schumann e muitos mais.

Johannes Brahms, o ‘deus loiro’ da música

Aos seis anos o pequeno Johannes demonstrava um talento incomum e foi encorajado por seus pais para seguir a carreira musical. Desde pequeno foi colocado em contato com a literatura inglesa, francesa e a literatura romântica alemã.  Sua educação musical também é dessa época: depois das aulas na escola, tinha lições de piano. O progresso do filho na música fez com que o pai de Brahms se sentisse encorajado a partir para os Estados Unidos e tentar repetir o sucesso de Mozart na infância.

Clara Wieck (Schumann), a esposa prodígio de Schumann

Clara Wieck (Schumann), nasceu em Leipzig, em setembro de 1819. Seu pai Friedrich Wieck era um notável  professor de piano, canto e crítico de música. A mãe, Marianne, uma excelente musicista, dava concertos. Quando Clara tinha 4 anos os pais se divorciaram e posteriormente Friedrich ganhou a custódia da menina. Aos 5 ela começou a ter lições de piano mediante a disciplina rígida do pai. Clara era uma criança prodígio que aos onze anos de idade já fazia turnês internacionais de concertos. A  partir dos 13 anos desenvolveu uma brilhante carreira como pianística e compositora, apresentando-se em vários palcos pela Europa. Ainda na adolescência, iniciou um romance com Robert Schumann que era aluno de seu pai. Wieck ao tomar conhecimento desta  ligação, ficou furioso e proibiu a relação, preocupado com o futuro da filha, pois Robert tinha problemas com a bebida, o fumo e crises depressivas. O resultado foi uma batalha judicial, em que Schumann acabou conseguindo permissão para desposar Clara, após ela completar 21 anos.

Brahms ainda adolescente, não tardou a receber um convite para tocar nas cervejarias da noite hamburguesa, ao lado de seu pai. Obviamente seus estudos sérios de música continuaram. Tinha aulas com Eduard Marxsen, regente da Filarmônica de Hamburgo. Ao lado das apresentações nos bares, também apresentava-se para a alta sociedade. Jovem, bonito, com uma grande capacidade de trabalho, Brahms em quatro anos tornou-se um dos mais famosos músicos da cidade. Apresentava-se em concertos com algumas estrelas da música alemã, em especial um violinista, intérprete de sucesso na época chamado Joseph Joachim, que se tornou um de seus maiores amigos. Foi Joachim que sugeriu ao jovem Brahms que deixasse Hamburgo para procurar novos ares em algum lugar da Alemanha. Brahms começou a compor cedo e, antes de completar 20 anos, seu Scherzo opus 4 já tinha entusiasmado e revelado afinidades com Schumann, a quem Brahms ainda desconhecia.

O casamento de Clara e Robert Schumann

Clara e Robert Schumann, depois do casamento, começaram uma longa colaboração, ele compondo e ela interpretando e divulgando suas composições. Clara continuou a compor, embora  a vida em comum fosse complicada e ela tenha  sido forçada a interromper seu trabalho em diversos momentos devido às suas oito gestações. Apesar de Schumann aparentemente encorajar sua criação musical, mulher abdicou muitas vezes de sua carreira como compositora para promover a do marido. A situação era agravada por várias diferenças entre o casal: Clara adorava turnês, Robert as odiava; ele precisava de silêncio e tranquilidade para praticar, o que, na prática, significava que Clara só podia praticar depois do marido ter terminado seus estudos. Brahms foi visitar os Schumann em sua casa em Düsseldorf. Era o ano de 1853 e o casal Robert e Clara o receberam como gênio. Robert logo tratou de recomendar as obras de Brahms aos seus editores e escreveu um famoso artigo na Nova Gazeta Musical, intitulado Novos Caminhos, onde Brahms era chamado de “jovem águia” e de “Eleito”. Schumann escreveu  em seu diário “Visita de Brahms, um gênio!”. Schumann o considerava um filho espiritual e a esposa Clara chamava-o de seu “deus loiro”.

Depois que conheceu Schumann, Brahms ficou alguns anos se apresentando nas cidades da Alemanha, fixando-se em duas residências – a de Joachim, em Hanover e a de Schumann, em Düsseldorf. Robert e Clara foram um dos mais famosos casais da época.  Schumann, além de ser o mais romântico compositor alemão de sua geração, era também um jornalista que defendeu Chopin e Brahms muito antes deles  terem alcançado a fama. O grande problema do casal Shumann eram as constantes crises nervosas do marido, que fizeram com que, aos poucos, Clara assumisse sozinha a responsabilidade familiar. A pior crise de sua vida aconteceu quando Schumann entrou em depressão crônica, o que obrigou a família a interná-lo num manicômio, onde ficou por dois anos, até sua morte. Após 14 anos de casamento, Clara ficou sozinha com os filhos, tendo que dar aulas e apresentações para sustentar a família

A crise familiar e a amizade com Brahms

A amizade com Brahms foi o principal sustentáculo nesse período, o que deu margem a fofocas de que os dois teriam um romance. Talvez nenhuma relação tenha gerado tanta especulação e debate como a natureza exata do vínculo entre Brahms e Clara, que viviam na mesma casa depois que Schumann foi para o asilo. Existem muitas hipóteses de que os dois teriam tido um relacionamento amoroso, mas não existe nenhuma prova, pois ambos destruíram cartas e outros documentos que poderiam confirmar isso. A evidência, ainda que evasiva, do que Brahms sentia por Clara encontra-se na música em si.  Entre outras obras, ele dedicou a ela o Capriccio, op.  76, No.1, de 1871. Clara Schumann e Brahms se mantiveram amigos íntimos por 40 anos, foram anos de colaboração mútua, já que os dois artistas eram defensores ferrenhos da estética romântica ligada a um padrão mais formal.          

A amizade durou até o final da vida de Clara em maio de 1896. Brahms nunca casou, morreu um ano depois de Clara em abril de 1897.

Da vida para a literatura e o cinema

Em 1959 Françoise Sagan, extraordinária escritora considerada por muitos como a última existencialista, publicou Aimez-vous Brahms? (Você gosta de Brahms?).  A narrativa do envolvimento amoroso de uma decoradora de 39 anos com o filho de uma cliente, 14 anos mais novo, que havia encontrado na Salle Pleyel onde estavam sendo executadas músicas de Johannes Brahms, é, provavelmente,  uma alusão a Clara e Brahms, uma vez que a diferença de idade dos dois era a mesma dos personagens do livro. Anatole Litvak, adaptou e filmou o romance de Sagan em 1961. Estrelado por um elenco de tirar o fôlego – Ingrid Bergman, Yves Montand e Anthony Perkins –  a versão foi  bastante  fiel ao livro. A Terceira Sinfonia de Brahms é o fundo musical que embalou a melancolia desse triângulo amoroso. Esta trilha foi centrada no 3º movimento (Poco Allegretto) da sinfonia, impregnada por um caráter meditativo, com melodias de fácil memorização e rara beleza e que se destaca por suas cores veladas.

Em 2008 Helma Sanders-Brahms, parente distante de Brahms dirigiu Clara Schumann (Geliebte Clara) premiado filme alemão sobre o célebre triângulo amoroso.  Com reconstituição de época impecável e um roteiro apaixonante, Clara Schumann é uma homenagem magistral à música erudita. Vale a pena ler o Livro de Françoise Sagan – Você Gosta De Brahms.., assistir os filmes: Aimez-vous Brahms?(Goodbye Again) de Anatole Litvak e Clara Schumann (Geliebte Clara) de Helma Sanders-Brahms.

Depois disso tudo, ouça com muita atenção a Terceira Sinfonia de Brahms, para mim, uma das mais belas sinfonias românticas!

 

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Leonardo Forte (Léo), 73 anos, economista, publicitário aposentado, casado dois filhos e uma neta. Apaixonado por cinema, literatura e música, escreve contos e promove encontros para ensino de jazz. Se quiser conversar com ele, mande seu email para [email protected]

3 comments

  1. A partir da leitura do seu artigo, decidi-me que teria que ver Geliebte Clara, coisa que o fiz já no dia seguinte (hoje). Aproveitei e ouvi também a Terceira Sinfonia de Brahms, sua sugestão. Interessante, pois nunca tinha considerado Brahms como um entre os meus compositores preferidos …. até hoje!! Muitíssimo obrigado pelas sugestões!!

  2. Karnal é um gênio e aprendi a admirá-lo no Café Filosófico e na TV Cultura. Essa entrevista é maravilhosa pois mostra o outro lado do pensador – como sua ligação à igreja católica, e ele hoje é ateu!! Sei que não toparia – mas seria um político no legislativo ou executivo que traria luz às trevas desses ambientes!!

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