Este artigo é parte do Clube dos Escritores

O sonho, por Sylvia Loeb


 

 

Quando Nelson dos Santos fez dezessete anos resolveu que não queria mais se chamar Nelson dos Santos, nem morar no bairro em que morava, nem frequentar a igreja, muito menos ficar o resto da vida naquele buraco que parecia tão confortável para seu pai, sua mãe e seus irmãos.

Mudou o penteado, começou a fumar, a frequentar as aulas com seriedade. Sucesso financeiro, forte, bonito, conquistaria todas as mulheres, destemido, esse o script que desenhou para si.

Numa segunda feira de manhã bem cedo pegou o trem que o levaria para o lugar certo, tinha certeza. O coração batia forte, aflito com o encontro tão almejado, embora não soubesse exatamente o quê estava esperando. Era uma espécie de intuição. Naquele dia encontraria o caminho.

Desceu no terminal do trem, pegou um cigarro; a fumaça, uma distração até a intuição chegar. Esmagou a ponta do cigarro no bico do sapato e foi para a rua dos bancos. Prédios altos, mármores negros, muitos metais, porteiros bem vestidos, homens de terno e óculos escuros, seguranças. Sentiu-se bem, – o meu meio, pensou ele. Viu uma placa, procura-se auxiliar de escritório.

Sabia computação, sabia escrever, tinha boa aparência, resolveu arriscar. Tem prática? Já trabalhou? Referências? Carteira de trabalho? A tudo Nelson dos Santos dizia não, Sua idade? 17 anos. Foi-lhe oferecida uma vaga de auxiliar de vigilante, não podia trabalhar, era menor de idade.

Aceitou, mas não ficou feliz. Planejou que ficaria na função até conseguir carteira de trabalho e referências. Na sua imaginação, já se via gerente.

Farda azul-marinho, boné da mesma cor, botas negras, crachá do banco com seu nome. Um cassetete completava a indumentária. Era bonito o uniforme de vigilante.

O trabalho consistia em ficar na parte de dentro do banco, no saguão revestido de mármore. Servir de retaguarda ao chefe, e vigiar se tipos suspeitos tinham passado pelo primeiro crivo.

O vigilante-mor podia andar de lá para cá na rua, em toda a extensão da imensa fachada imponente, com altas portas de vidro ladeadas por metais reluzentes.

No dia 18 de março, quando Nelson dos Santos faria 18 anos, um grupo de três executivos todos vestidos em negro, muito elegantes, entraram rindo e conversando pelo saguão, depois de cumprimentarem o comandante-chefe com familiaridade. Não olharam para o sub e dirigiram-se diretamente ao guichê do caixa.

Havia uma mulher esperando para ser atendida; ela olhou os homens com admiração e esboçou um leve sorriso, ao que foi retribuída por um deles. Havia outro na fila, também elegante, a quem a mulher já tinha lançado longos olhares, igualmente retribuídos.

Os recém chegados anunciaram o assalto sacando pequenas pistolas. O da fila sacou um 38 e empurrou a mulher para o chão. Ela gritou e Nelson dos Santos acordou do encantamento que os três homens exerciam sobre ele.

Nelson dos Santos quis mostrar coragem, avançou para um deles, cassetete erguido.

Levou um tiro, um único, certeiro no crachá com seu nome, Nelson dos Santos.

 

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SYLVIA LOEB – É psicanalista e escritora. Visite seu site, acesse sua página no Facebook ou escreva para o email [email protected]!

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