Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Ônibus fosforescentes, por Liliana Wahba


 

 

Não sei se alguém mais viu. Uma fileira de ônibus com luzes de neon uns dias antes do Natal. Essa concentração iluminada iria se desfazer, só vi um ou outro circulando depois. Faiscavam, fileiras coloridas, um visual contrastante às ruas escuras,  o olhar suspendia-se e esquecia a sujeira, os trapos e os buracos; brilho e cores, parecia sonho.

Quem ali embarcaria? Para quais paragens se dirigia?

A mocinha apaixonada ao encontro de seu amado, que a receberia com afagos e palpitações, envolvidos na magia da primeira relação sexual,  terna e sensual, ritmada como a natureza desabrochando.

O homem forte e maduro, repleto de projetos a realizar, cansado e satisfeito com o dia árduo de trabalho indo ao encontro de amigos que comemorariam o campeonato de futebol; o time não vencera, mas tinha jogado com ímpeto e paixão, os adversários elogiaram e iam comemorar junto, homens irmanados, braço a braço,  corações desanuviados.

A senhora de idade, com dores nas juntas, que gostava de passear de ônibus pela cidade, ver quem passava, quais roupas vestia, como conversava e ria ou andava cabisbaixo; imaginava uma história para cada um e, ocasionalmente, alguém com ela falava e lhe contava algo, recolhido como as pedrinhas coloridas que gostava de colecionar.

A mulher profissional de sucesso, que trocava de carro a cada três anos e muitas vezes preferia o ônibus; ali se sentia em comunidade, percorrendo trajetos desconhecidos, indagando encruzilhadas, criando pausas e muitas perguntas que não precisava responder.

Eu, me deixando levar, juntando alguma memória perdida a cada parada, saudando o que foi e esperando o porvir, tranquila pelo que é, pelo que deixou de ser, pelo que ainda se pode receber …

Alguém mais os viu? Era sonho?

 

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

 

4 comments

  1. Liliana,
    era sonho e foi real, eu também os vi! E fiquei como você descreve…
    Nunca havia visto nada igual.
    Uma fileira.
    “Eu, me deixando levar, juntando alguma memória perdida a cada parada, saudando o que foi e esperando o porvir, tranquila pelo que é, pelo que deixou de ser, pelo que ainda se pode receber …”
    Estou entrando neles agora, lendo você!

    Beijos

  2. Também vi , Liliana, fiquei tão encantada que entrei nele e encontrei você. Lembra? Conversamos muito sobre a vida, sobre os filmes que amamos, sobre nossas inquietações, planos de futuro. Chegou seu ponto de descida, voc6e foi embora, eu fiquei mais um pouco, até chegar ao meu. Linda viagem.

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