Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Origami e o mar,
por Bettina Lenci

Aprendi com meu pai, culto leitor, que não se dobra a página de um livro para lembrar onde paramos de ler. Dizia ele, com razão, que assim fazendo rompo a história do livro. Ensinou-me a lembrar o número da página ao desejar voltar à leitura. Deixei, há algum tempo, de gravar o número por não lembrá-lo mais quando necessário.

Hoje, surpreendi-me, ao voltar ao meu livro do momento e marcá-lo com a dobradura triangular pontiaguda mais parecida com um origami de passarinho. Se faz hora esquecer conselhos de pais!  

Poderia me habituar aos marcadores de livros, mas eles caem por debaixo e eu fico sem saber em que página parei. Verdade que marcadores de livro enfeitam o próprio. Alguns reproduzem fotos de quadros famosos de museus famosos. Podem ser de prata, de madeira ou uma fita fina entre uma página e outra. Já tive um coração de prata que ganhei no casamento do meu filho com seu nome e o da sua esposa gravados. Não o usei para a finalidade para a qual foi criado, ou seja, marcar a página e a cada vez lembrar do casamento do meu filho. Tenho vários filhos e nem todos me presentearam com um marcador de página com seu nome gravado. Com filhos é preciso ser imparcial, no amor e na matéria.

Assim, para não criar disparidade de lembranças, guardei o do meu filho entre os objetos queridos que estão reunidos numa caixa. Ao morrer, eles terão que dar conta de tudo que minha caixa contém. Quase cheia, ela é depositária de objetos de difícil uso, mas importantes porque representam saudades memoráveis.

Li: saudade é nome que diz permanência do perdido.

Sim, os objetos que ali estão guardados permanecem perdidos para a saudade.

No silêncio da caixa a saudade fica lá enterrada e quando a abro os fantasmas saltam como João bobo de sua casa.  A razão de guardar objetos – no momento em que são afastados do convívio e  já cumpriram com sua obrigação – é lembrá-los!

O Homem é realmente estranho! Guarda o que lhe traz saudades e memórias de coisas perdidas no seu próprio tempo de vida. Traz, por sua conta e risco, o sofrimento para junto de si! Por quê? Lembranças esparramadas pela casa, quadros herdados, santos de fé, bibelôs, porcelanas, vasos e prataria. Por quê?

Não sei! Esta resposta vai para a caixa de objetos lembrados, mas escondidos na sua permanência dentro dela.

Voltando à pontinha da página dobrada como origami, retomei minha leitura. Apesar de não afeita à poesia despertei para ela através de uma poetisa portuguesa que passou sua vida olhando para o mar. Ela fala da luz; da medusa, da lua, do vento, da sua Terra Pátria. Dos pinheiros e da morte.

Não há como não despertar, frente ao mar de Portugal, cortando as rochas desiguais ao longo da sua costa em todos sentidos e cores, a luz em qualquer estação refletindo o cinza-chumbo do mar, com chuva, mais profundo cinza, com sol, um mar dançante, luminoso como luz ao alvorecer da Estrela D’Alva. Esta visão mutante de beleza surreal, não há como não despertar no português, no navegador ou visitante, um fio de poesia e louvor para si. Assim descreve Sofhia de Mello Breyner Andersen este inequívoco momento:

Como o rumor do mar dentro de um búzio

O divino sussurra no universo

Algo emerge: primordial projeto

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BETTINA LENCI – Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.


2 comments

  1. Caixa de memória, das lembranças que trazem alegrias e tristezas, a nossa vida.
    Você escreve lindamente Bettina, um prazer viajar com você pelos seus textos tão sensíveis.

  2. Envoltos na memória suas crônicas sensibilizam e transportam para momentos afetivos das nossas vidas. Quem nunca usou uma boina em dia frio ou dobrou a página de um livro?

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