Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Pau de sebo,
por Bettina Lenci


 

 

A praça é arborizada. A prefeitura acabou de cercá-la com uma armação de arame verde, dentro do espaço instalou um escorregador, uma balança, barras para fazer alongamento, um trepador para crianças brincar de macaquinho e as vovós aplaudirem e um cavalo de pau para ginastas eventuais. Ou seja, dispôs de maneira bastante prazerosa ocupação para a primeira, segunda e terceira idade. Criou caminhos internos, apedregulhados, para o passeio do cachorro e uma pista entorno da praça para os caminhantes, inclinada, mas não esqueceu do piso para o caminhante cego. Disponibilizou bancos para desempregados, moradores de rua, namorados e de quando em vez, um ou outro fumante de maconha. Tudo isso em torno da estátua de um herói sul americano. Todos os dias levo meu cachorro para lá para que possa fazer suas necessidades. Já tenho alguns conhecidos que cumprimento, mas evito conversas mais longas sobre cachorros apesar da minha curiosidade em relação às suas histórias. Meu passa-tempo é imaginá-las. Não é difícil identificá-las: pela idade dos frequentadores, pelas roupa, às vezes pelo lenço amarrado no pescoço do cachorro, pela marca do tênis, a roupa que veste a baba ou pelo cheiro que a maconha ou o cocô dos cachorros não catados deixam no ar.

Redonda como um anel, a praça é circundada de casas grandes e das altas janelas, seus moradores podem usufruir da vista arborizada e do conforto cidadão que a prefeitura tentou ali criar, pois os muros e defesas são tão altos que para quem está na praça nem casas existem.

Carros estacionam na frente dos portões destas grandes casas sem observar que deixou seu carro ao lado de uma guia rebaixada.

O que fez um dos moradores para que a sua entrada não ficasse obstruída?

Fundiu cimento em uma lata de tinta de 5 litros e fincou um pau bem alto no meio . A lata não vira (a não ser por ação de algum vândalo) e alerta para quem tiver bom senso, que ali é uma entrada privada. São duas latas pintadas de amarelo, uma de cada lado do portão.  

Tal alerta contudo foi insuficiente porque algum jovem musculado na academia, com a certeza que a rua é pública, moveu os dois sinalizadores do lugar desejado pelo dono da garagem.

Como foi que o dono se defendeu, agredido em seu direito de cidadão? Lambuzou camadas grossas de graxa no improvisado sinalizador de seus direitos. Só vi algo parecido no pau de sebo em festa de S. João.

A um fato assim , ausentes opiniões de lado a lado, dá-se o nome de ambivalência. Um ato neutraliza o anterior. É a ambivalência da grande cidade com os desejos de uns contra os desejos de outros, todos tendo que aceitar as “coisas como elas são”! Não há como não se conviver com a calçada pública e o direito do dono da casa proibir estacionar um carro. Melhor é aceitar e continuar andando e recolher, cabisbaixo,  o cocô do seu cachorro a quem se permitiu fazê-lo na praça pública.  

 

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BETTINA LENCI – Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.

 

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