Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Propulsão,
por Liliana Wahba

 

 

 

Uma ligeira propulsão lhe permitia elevar-se do solo. Imperceptível aos demais, planava. Esse artifício divertido, que ela pensava ser natural a todos, permitia-lhe deslocamentos muito rápidos, surpreendendo colegas da escola. Mais tarde aprendeu a deslocar-se intencionalmente quando algo lhe desagradava. Não que fosse antissocial, pelo contrário, gostava de gente, pelo menos durante a maior parte do tempo. É que os limites do suportar por vezes desbordavam, e então, se elevava, de fato, ainda que se possa entender como metáfora. O problema das metáforas (especialmente os provérbios) é que não resolvem: enfeitam a realidade para continuar a tolerá-la, mas ela podia, posto que não detinha controle sobre essa realidade, evadir-se literalmente da terra. Descanse em paz, para quem morreu e no velório homenagear a falecida com palavras de consolo aos familiares, tais como: parece uma rainha, quando não mais parecia com nada deste mundo. Há males que vêm para o bem, após uma sucessão de desgraças o infeliz recebendo tapinhas nas costas de camaradas. A natureza do ser humano é essencialmente boa, e em reunião de trabalho apontava-se quem devia ser despedido quando a pessoa não estava presente por licença médica. Doeu mais em mim do que nela, a mãe de uma menina que lhe tinha dado uma chinelada no pescoço porque respondera mal à tia: tinha respondido “e daí?”. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando, e o amigo espertalhão saindo com a menina almejada desde o colegial confidenciada pelo outro que a desejava e ao qual aconselhara a ficar com a namorada de cinco anos, um tédio só. Importa competir, não vencer, enquanto se festejava a vitória com gritos e sacudidas e os perdedores murchavam encolhidos. A vida é misteriosa, para explicar uma situação que francamente tinha sido um baita de um fora, facilmente evitado com algum discernimento prévio. Amar é padecer no paraíso, a mulher pela enésima vez insultada grosseiramente pelo bêbado do marido. Tempo é dinheiro, o lema de sua família em sermões semanais do pai, quando a vizinha vagava ao bel prazer e se divertia à beça. Depois das vacas magras vêm as gordas, o vagabundo do tio que não trabalhava há anos e filosofava sobre a vida. A vida é sonho, o grupo de sonhadores esquecia que pode ser, e transformava poesia em explanações. Razões não faltavam para planar.

 

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

One comment

  1. Adorei esse desnudar dos provérbios – dos clichês e das frases feitas [e vazias]. Também gostaria de ‘evadir-me da Terra’, algumas vezes [sete vezes por dia, aproximadamente]. Vou comprar um propulsor invisível! Eu não precisaria de elevador – ali onde mais ocorrem com maior frequência esses fenômenos da função fática… Levitemos!

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