Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Quartos de passagem,
por Bettina Lenci


 

 

Quartos de hotéis são espaços encapsulados num território finito reservado e passageiro. Nossas coisas espalhadas, as cortinas e colchas inertes como se cada hóspede tivesse levado um pouco da sua vida junto com eles, são as testemunhas de seus segredos. Quantas intimidades, antes da nossa,  não haviam deixado suas pegadas? Quantos momentos desconhecidos acumulados no colchão, no chuveiro, na maçaneta da porta?

Imagino rasgos de cenas. Num deles quando a cama desaparece e o amor desliza para um abismo sem cor. Outro em que, sem poesia, solidão ou dor, sem o vazio para interpretar a razão dos porquês, descansa-se em paz. Ainda outro onde se dorme o sono do cansaço. Quartos de hotéis contam sobre a estranheza de nos encontramos em um lugar desconhecido no qual, por algumas horas, é possível viver um tempo e espaço de liberdade anônima, a não existência de gente e vida, a sensação da imaterialidade da alma.     

 

__________________________________________________________________________________________

BETTINA LENCI – Uma empresária que se realizou tendo como início profissional a história da arte e a fotografia, mas que, posteriormente, descobriu que lendo e escrevendo é possível criar um mundo com um olhar agudo sobre o cotidiano de todos nós.

2 comments

  1. O NOME DA ROSA, livro escrito por Umberto Eco, virou sim um belo filme. Concordo com o envenenamento por uma mídia medíocre e sem cultura. Me amedronta meus filhos e netos serem contaminados pela Internet, por uma vida não real e o pior, pensando que sabem tudo, ignorantes que são de tudo.
    Não sei se é bem o lugar mas te convido para minha exposição no Sesc Jundiai. Não consegui falar com você apesar dos esforços. Beijo

  2. Bettina, o que você relata veio para ficar, não tem mais jeito.
    Ou incorporamos, na medida do possível, ou ficaremos de fora de um trem que não vai nos esperar.
    Fiquei bem interessada nas escultural de Jeff Koons, embora não consiga apreciar seus cachorrinhos metálicos. Interesso-me mais a obra de Jackson Pollok. Obras que se materializam ou que se transformam, produzem novas obras. Acho isso fascinante, pois abriu-se um espaço, aterrador muitas vezes, onde não sabemos em que buraco negro vamos cair.
    As obras de arte materiais continuam em museus, lá poderemos rever a originais. Até quando?
    Não sabemos. Mas por enquanto é o que temos.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *