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“Que Horas Ela Volta?” reverso do cultuado “Teorema”

A cineasta paulistana Anna Muylaert, diretora do sensível “Que Horas Ela Volta?”, confidenciou numa entrevista recente, que pensava na história (argumento) desse filme há mais de uma década. Lembrava sempre da babá que cuidava dela quando pequena e numa dúvida que teve, certa vez, quando ainda adolescente, sobre incluir ou não a empregada num desenho que fizera com todos os membros da sua família presentes ao redor da mesa de jantar. Afinal, a empregada era membro efetiva da família e assim deveria ser tratada. Uma questão delicada.

Quase todo mundo teve ou conheceu uma empregada que trabalhou em casa durante anos, décadas. Algumas criaram os filhos, os filhos dos filhos e algumas chegaram a conhecer ou cuidar dos netos. A empregada era um fiel membro da família, sempre presente, amiga, prestativa, provedora de conselhos, roupa bem passada e alimento quentinho. Era quem, em certas ocasiões, fazia com que dormíssemos e despertássemos. A quem confidenciávamos segredos importantes e dúvidas cruéis. Ou seja, era mais que uma simples trabalhadora doméstica. Significava entendimento e carinho, mas, muitas vezes também, problemas de relacionamento na sempre difícil relação patrão e empregado.

É o que acontece no filme através da personagem principal, Val, protagonizada por Regina Casé. Ela vive bem adaptada naquela família burguesa de princípios, aparentemente éticos, generosos e democráticos, até quando chega sua filha Jéssica, que ela não via há dez anos e que sai do Nordeste para prestar vestibular e tentar a vida em São Paulo. A partir disso, tudo se complica. A realidade que Jéssica traz na sua bagagem é a de uma classe social que nos últimos anos ascendeu no Brasil, a chamada classe C.

Jéssica, ao residir na casa onde a mãe é empregada doméstica, quer ter (ou imagina que possa ter) os mesmos direitos de uma visitante qualquer, reproduzir os mesmos costumes do dia a dia do filho dos patrões de sua mãe Val. E não entende porque isso não é possível. Por que não pode se sentar à mesa, comer iogurte, nadar na piscina? E os dilemas começam. À medida que avança nos seus desejos e manias, a relação com sua mãe – e os patrões – vai se deteriorando.

Ao mesmo tempo, que desobedece e irrita a mãe, Jéssica a politiza. Como deve agir Val à partir de agora com a filha e os patrões e com o filho do casal que se torna “amigo” da filha? Uma situação tênue e confusa. Até onde vão os direitos de Val e da filha e acabam os direitos dos patrões? Afinal, que direitos são esses? Baseados em que princípios?

Jéssica põe tudo de pernas pro ar, desmascarando valores e conceitos que por si só se mostram frágeis: onde começam ou terminam verdadeiramente os direitos de uma empregada e sua filha dentro uma família nuclear tradicional? Tem lógica uma nova integrante chegada de fora (“estrangeira”) tumultuar todo o ambiente e o cotidiano dessa família?

Apesar de serem duas propostas distintas em termos de linguagem e narrativa, “Que Horas Ela Volta?”, nos remete de certa maneira à “Teorema”, obra prima de 1968, do italiano Pier Paolo Pasolini. Em ambos, temos as famílias sendo “invadidas” por visitantes. Em “Teorema”, realização muito aclamada no mundo todo, a chegada de um estranho, jovem, bonito e sedutor, à casa de uma família burguesa, causa desconforto e, ao mesmo tempo, todos se sentem envolvidos com o visitante. Ali, cada membro da família representa uma instituição e um segmento da sociedade. O filme critica a futilidade, a alienação e o comodismo burguês. Neste sentido, Teorema continua absolutamente atual. Aos poucos, o estranho muda para sempre a vida e o destino de todos do lar, da empregada à matrona. O desejo mostra seu lado disruptivo, sua face oculta, alterando lugares milenarmente estabelecidos.

No filme de Anna Muylaert “Que Horas Ela Volta?” acontece o contrário. A visitante vai provocando gradualmente na família rejeição, ódio e ressentimento. E, com isso, a questão da diferença de classe passa para primeiro plano.

Se no filme de Pasolini, “Teorema”, a chegada do personagem principal (“estrangeiro”) explicita nos personagens daquela mansão um desejo de mudança, atraídos pela presença carismática do hóspede, alterando até suas personalidades, no filme de Anna Muylaert a chegada da filha Jéssica àquela família igualmente abastada, faz uma mudança interna também acontecer, mas, em um outro sentido: dentro das próprias personagens mãe-filha, “estrangeiras”.

Se em “Que Horas Ela Volta?” temos uma narrativa mais leve, com muita ironia e certa dose de humor e com uma atuação soberba de Regina Casé, em “Teorema” temos uma densidade dramática de mais alta tensão, mas, com uma interpretação igualmente antológica de Terence Stamp.

Em “Que Horas Ela Volta?” a mudança de atitude recai tão somente sobre Val e Jéssica. E não, necessariamente, sobre a família, o que resulta num final surpreendente, belo e delicado. Sem ódio ou rancor. Com acolhimento e aceitação plena da situação e do momento, por partes de ambas: mãe e filha.

“Que Horas Ela Volta?” e “Teorema” são filmes questionadores e que comovem. E que nos interrogam sobre o nosso modo de estar no mundo.

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Reinaldo Pinheiro é produtor e cineasta. Escreve esporadicamente em Cadernos Culturais de jornais e revistas. Teve também grande atuação no mercado publicitário. Desde 1994, dirige a própria produtora Sequência 1, em SP. Já dirigiu sete curtas-metragens (entre eles, o premiado “BMW Vermelho”), dois documentários, um longa de ficção “Nossa Vida Não Cabe Num Opala”. Prepara atualmente mais quatro projetos: um longa doc sobre Adoniran Barbosa (“O Arnesto nos Convidou”), outro sobre prostituição no Brasil, um longa doc intitulado “O Tempo Passa” sobre envelhecimento de travestis e um longa de ficção intitulado “Um Cinema de Outros Tempos”. Tem também planejado para 2016, três séries para TV: “Libidinosos”, “Cascatinha e Inhana” e “Gata Tulipa”. Produz todos os filmes da psicanalista e documentarista Miriam Chnaiderman.

2 comments

  1. Muito bem lembrado o soberbo filme de Pasolini, Teorema. Na comparação entre os dois, Reinaldo acentua as semelhanças e diferenças da intrusão do estrangeiro em uma situação já estabelecida. Em ambos os casos, uma revolução de valores. Filmes importantes, que incomodam.

  2. Também gosto dessa articulação com o clássico Teorema. Gostei ainda da ideia de estranhamento entre “mãe e filha”; que imediatamente recai sobre a relação Fabinho e Bárbara que começam a se estranhar.
    Isso me fez lembrar de uma frase de Caetano, ao ser perguntado sobre o fato dos filhos (exceto Moreno) pertencerem à Igreja Universal: “a gente esquece que empregada tem religião”.
    Outra coisa importante à Psicanálise, é o fato do Reinaldo lembrar que a Anna coloca algo de si no filme, pedaços da sua história com a figura da babá, empregada que não pertencia à família. No filme, essa ideia de não pertencimento é terrível.

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