Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Susto arquetípico,
por Liliana Wahba

 

 

 

Nasceu com olhar assustado. Na infância, a família vislumbrava espectros fantasmagóricos e redobrava preces aos ancestrais. Na escola impressionava as professoras que evitavam fazer-lhe perguntas que pudessem acentuar o semblante perturbador.

Com vocação para a medicina, teve que abandonar a carreira na residência após diversos incidentes que culminaram com uma mãe devastada que achou que a filha, com catapora, iria morrer de encefalite. Rumou para a filosofia onde teve certo sucesso, pois era considerada exímia em compreender a perplexidade da existência, mas acabou fracassando nas provas finais quando os examinadores quiseram aprofundar a visão pessimista de Schopenhauer com a ética de Spinoza; o susto não procedia.

Buscou, finalmente, por insistência da mãe, um analista junguiano. Este se entusiasmou com o que descobriu ser o susto arquetípico, mas após um ano não suportou adentrar nas cavernosas entranhas de sua própria angústia. Uma cirurgiã a curou com uma plástica nas pálpebras e lhe estampou uma expressão plácida e benevolente.

Encontrou-se no budismo.

LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.

 

 

 

One comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *