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Mortos insepultos

 

45 anos de casamento, uma festa programada para a comemoração. O casal vive no interior da Inglaterra, a vida pacata, a mulher, Kate, passeia com o cachorro pela manhã, o marido, aposentado. À mesa da cozinha, desleixado, barba por fazer, de pijama; a mulher chega de fora, senta-se ao lado, ele diz: ela foi achada. Ela, quem?! Ela foi achada. Quem? Katya. Você sabe de quem estou falando, não? , ele pergunta à mulher.

O marido, muito perturbado, a mulher, Kate, intrigada. Fica sabendo que o marido teve um relacionamento, há mais de quarenta e cinco anos, com uma mulher que morreu em uma caminhada que os dois estavam fazendo, ao cair em uma fenda na montanha coberta de neve. Ela tinha desaparecido. Pela temperatura extremamente baixa, o corpo tinha se conservado exatamente igual ao que fora há quarenta e tantos anos. O marido diz: ela está igual ao que foi, olha só meu estado.

Ao espectador é apresentado um homem velho.

O filme desenvolve-se a partir deste fato: um casal, até então pacato, desconcertado pela entrada de um terceiro.

Fernando, um internauta escreve: estou casado há mais de trinta e cinco anos, amo minha mulher, nossa relação sexual é maravilhosa, mas desconfio dela o tempo todo. Já coloquei vários detetives atrás, nunca encontrei nada. Tenho quase certeza de que eles combinam me enganar. Meus filhos dizem que sou louco. Não consigo me separar dela apesar de minha vida ser um tormento.

No filme, o marido, abalado, deseja viajar para as montanhas nos Alpes Suíços, onde o corpo foi encontrado, reencontrar seu antigo amor. Minha Katya, ele diz. A esposa em choque. Surgiu uma rival. Ela lhe pergunta e ele confirma: sim, teria se casado com a outra se ela não tivesse morrido. Por que nunca me contou essa história? Ao que ele responde: eu estava apaixonado por você, uma moça linda; acha que eu iria lhe contar um fato deste?

A casa aconchegante, o inverno lá fora, o cachorro amigo.
No meio da noite o marido vai ao sótão remexer em velhos objetos. A mulher acorda, o que está acontecendo? Achei uma foto, só uma foto, não é nada, diz o marido. Ao que ela responde, não, você não achou, você foi procurar. Exige ver a foto.
O clima invernoso, inóspito, vento, chuva, neblina cerrada. O tempo, cada vez mais cinzento.

Fernando, nosso internauta jamais achou nada em mais trinta e cinco anos de casamento, nem por isso cessa de procurar.

Kate, vasculhando o sótão, encontra velhos slides, imagens borradas; passa um por um, perscrutando as feições da rival. Até encontrar uma foto em que vê a outra grávida. Descoberta devastadora.
Em um diálogo áspero com o marido se dá conta que toda a vida deles foi determinada pela existência desta mulher que morreu, por um cadáver congelado, insepulto.

Que corpo insepulto perturba a relação de Fernando com sua mulher? Que luto ainda não realizado impede que os mortos descansem em paz?

No filme, a imensurável perda que o homem sofreu, o choque da mulher sumir repentinamente tragada pelo buraco na montanha, o trauma sofrido, violência insuportável que o impediu de viver o tempo necessário para se deprimir pela perda da mulher que amava, grávida dele. E ao não achar o corpo, não pode enterrar seu amor. O surgimento de Kate, moça linda, obturou o terror que estava vivendo. O sofrimento era grande demais.
E Katy insepulta, soterrada pela neve, permaneceu viva em sua memória.

Dizem que o que nos faz humanos é a possibilidade de enterrarmos nossos mortos.

Volto a perguntar, que cadáver insepulto perturba nosso internauta?

No caso do filme, talvez possa haver a chance do marido, finalmente, realizar o trabalho de luto tão adiado, enterrar seu antigo amor. No caso de Kate, devastada com a ideia de uma outra que foi amada antes dela, talvez seja necessário um trabalho de luto para curar uma ferida imensa, do tamanho da fenda gelada que tragou a outra mulher.
Não por mera coincidência, a primeira se chamava Katya, a segunda Kate.

No caso de Fernando, pergunto a ele: não será que precisa de um terceiro para dar sentido à sua vida? A excitação sexual, sempre garantida pelo ciúmes, a suposição de sua mulher sendo desejada por outros homens mas se entregando a você . Uma mulher tão desejada por outros, é sua, só sua, pois em algum lugar você sabe que ela não o trai.

Não seria um pacto entre vocês, inconsciente talvez, para garantir arrebatamento na relação? A existência imaginária de um terceiro para garantir o interesse sexual?
E se a cumplicidade se romper, o que restará?

Um jogo que dura 35 anos.
Parece, portanto, que ainda não se cansaram.

45 anos, um filme de Andrew Haigh. Trabalho magistral de atores, Charlotte Rampling e Tom Courtenay, ganharam o Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim como melhor atriz e melhor ator, respectivamente.

Menos é mais nesse filme delicado e intenso.

Sylvia LoebSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com ou acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb

 

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