Este artigo é parte do Clube dos Escritores irmãs - sylvia loeb - clube dos escritores maiores de 50 - paul gauguin

Irmãs

Querida Sylvia

Minha irmã começou a namorar um ex -namorado, de quem me separei há muito tempo, depois de um relacionamento difícil que durou dois anos. Não deixou boa lembrança.

Minha pergunta: como fazer para não sentir o mal estar que estou sentindo?
Fico contente por minha irmã ter encontrado alguém, pois acabou de se separar, mas o desconforto persiste.
Me vejo egoísta, culpada por sentir o que sinto.
O que faço?
Marilena

Foto: reprodução/Jamie Moore
Foto: reprodução/Jamie Moore

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Marilena,
Relações de muita intimidade normalmente são permeadas por ambivalência: conseguimos amar e odiar a mesma pessoa ao mesmo tempo; somos gratos e temos inveja, admiramos e competimos, tudo junto, numa confusão de sentimentos. Assim somos nós, humanos, plenos de afetos contraditórios.
A relação entre irmãs é caldeirão perfeito para essa mistura.
Sua irmã começa a namorar um ex-namorado seu.
Você fala em desconforto.
Podemos dizer que sente-se invadida em sua intimidade? Podemos dizer que cheira um pouco a incesto? Afinal não é pouca coisa uma irmã transar com o ex da outra.

Ou seja, relações que normalmente são regulamentadas por limite simbólico -, não se transa com o ex-namorado de minha irmã, não se transa com o ex-marido de minha irmã -, são desrespeitadas.
Geram mal estar, causam constrangimento, uma das irmãs sente-se invadida em sua intimidade, pois o mesmo homem que transou com ela vai transar com a irmã dela.
Parece existir aí uma relação fusional, ou seja, uma irmã é tão ligada à outra que não consegue ou não aceita se diferenciar: isso a colocaria no mundo frente às próprias escolhas, sucessos e fracassos, muito ameaçador.
Vivendo por empréstimo -, mesmo que seja uma escolha pior, pois afinal das contas, o homem que sobrou foi recusado pela irmã-, experimenta a ilusão de se apropriar de sua vida, quando na realidade vive um simulacro dela, ao menos, nesse episódio.
Não podemos também descartar o componente inveja e seu complemento – um pouco de agressividade – por que não?
Volto à sua questão inicial: você se sente constrangida e ao mesmo tempo culpada, egoísta por sentir o que sente.

Uma pergunta: sua irmã transa com seu ex-namorado e o mal estar é seu. E ela?

Se você fosse mais descolada, mais de acordo com nossos tempos tão liberais, provavelmente isso não seria assunto de discussão. Acharia tal sentimento pouco generoso, muito apegado, espírito do século passado.

Se você fosse mais descolada, pensaria com seus botões, “ora! você não está feliz no seu relacionamento? Deixa minha irmã usufruir o dela; deixa pra lá, você já viveu o que tinha de viver com esse cara, já passou, agora é a vez dela, desapega!”

Se você fosse mais descolada…
Mas como não é, você me escreveu: sinto desconforto, o que faço para não ter esse sentimento?

 

Sylvia LoebSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com , acesse sua página no Facebook:

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