Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Tartarugas no varal,
por Sergio Zlotnic



1- Faz muitos anos, estive no GRAND CANYON – vasto, vasto, vasto! Logo na chegada, recebo uma folha de papel com o seguinte escrito:

“Risco de vida! Inclua desde já nos seus cálculos e raciocínios que o mesmo caminho de ida tem de ser percorrido na volta, de sorte que tudo que você faz tem de ser computado como o dobro. Toda a energia que vc gasta resulta no dobro. Tudo deve ser multiplicado por dois. Ou por três: na volta o cansaço é maior… A responsabilidade é exclusivamente sua!”.

2- Se mergulhássemos no fundo dos oceanos, veríamos muitas coisas. Entre elas, tartarugas em cavernas (quase) abissais. Mortas! Elas não calculam. Não antecipam. Não recebem folhetos explicativos. Desenham o percurso à medida que caminham. Guiam-se pela máxima de ANTONIO MACHADO: “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Leram os lindos versos – e os levaram ao pé da letra.

Assim, depois de longa inspiração, muitas delas entram em cavernas e grutas imaginando que sairão do outro lado, ou que voltarão marcha à ré. Entretanto, como o fôlego delas (apesar de grande) não é infinito, subitamente, no meio do passeio, acaba o ar! Xeque mate. Submersas, sem saída, restam a elas duas opções: morrer ou morrer.

3- Para as tartarugas, nesses momentos trágicos, navegar é impreciso. E viver, também.

Talvez, penso eu, elas queiram recuperar o tempo mítico em que, oriundas de amebas, como todos nós, não precisavam respirar pra viver. Eram totalmente aquáticas. Obtinham oxigênio através de guelras primitivas… Porém, no delírio, as tartarugas se dão tremendamente mal.

4- Pelos oceanos fundos, que horror, a cena: boiando, mortas, museu a céu aberto (museu a mar aberto), TIRADENTES revivido (remorrido), tartarugas penduradas num estranho varal (STRANGE FRUIT), como que servindo de exemplo, dizendo ao léu: “Olha aqui onde as onipotências desembocam…”. Exposição de cadáveres. Lembram lustres orientais, ornamentos dos tetos das cavernas, iluminando ninguém.

5- Hoje, contei essas duas estórias a uma sábia – tanto a do GRAND CANYON, quanto a da TARTARUGA. A sábia escutou, calada. Então, se pronunciou: “de outro lado, deixar um rastro de pão pelo caminho também não ajuda – já que os pássaros comê-lo-ão”. E eu enfim compreendi: o rastro pode ser enganador – traiçoeiro até!

6- MORAL DA ESTÓRIA: o desejo de ir longe deve conter alguma dose (mesmo que pequena) de parcimônia/cautela. Fasten seat belt. Não é garantia, mas quebra um galho.

7- OBSERVAÇÃO. Voltar pra casa é o que tantos desejam. De qualquer modo, na vida, sabemos todos, já há muito tempo, NUNCA voltamos: mesmo o retorno é uma ida. One way ticket (sempre)! Uma ANDORINHA sozinha não se banha duas vezes no mesmo NILO.

8- CONSEQUÊNCIA (do movimento das marés): na ilusão do porto seguro, paradoxalmente, aquele que fica não fica! Mesmo imóvel, com canja e pijama e poltrona e sossego, quem permanece quieto em casa, entediado ou aposentado, já não é mais o mesmo de ontem. Novas águas e vertigens urgentes o atravessam, segundo a segundo…

Donde diariamente temos de reformular o velho mote: “boa romaria faz quem em casa fica em paz”.

9- “STRANGE FRUIT”, na voz de BILLIE HOLIDAY, foi o grito/ícone do movimento negro nos EUA do século passado. O título (“estranha fruta” – visão horrenda, reverso da onipotência do viajante) faz alusão aos negros enforcados, linchados, pendurados em árvores… Impedidos de ir e vir, vítimas do racismo.

10- Com alguns fatos históricos exaustivamente documentados, a parábola aqui criada foi sonho ainda úmido da noite passada – que reconstruo aos fragmentos. E o tomo como espécie de advertência (conselho, recomendação…). Um punhado de voz rouca da Prudência, murmurando para nosso alento: faça com que o Cuidado ande de mãos dadas com a Fé.

Deixo finalmente estas ideias acima molhadas endereçadas a ele – que, dentro em breve, parte por tempo indeterminado, de encontro ao desconhecido. Brasil Profundo.

11- EM TEMPO: rogamos e suplicamos, regresse! Eu, que não fui (nem vou), estarei aqui sempre outro de mim.

12- PÓS-ESCRITO – A tartaruga vive 170 anos. Matusalém, 969. A sequoia-gigante,  4.650. Cachorro, até 20 anos. Moscas domésticas, entre 15 e 25 dias. Sete vidas tem o gato…

13- Ah! Pedra vive mais!

14- Pode uma ideia viver mais que uma pedra?

15- E uma carta de amor??

SERGIO ZLOTNIC – Psicanalista, é Pós Doutor em Psicanálise pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador dos diálogos de Freud com os campos da arte. Colunista do Portal da SP Escola de Teatro. Pela Editora Hedra, lançou o livro de ficção Baleiazzzul, alusão ao atravessamento do processo psicanalítico. [email protected]

3 comments

  1. POING!
    De susto em susto vou lendo suas histórias molhadas e aprendendo com surpresa e graça a urgência de tecer uma aliança entre prudência e onipotência, que a Fé ande de mãos dadas com o Cuidado.
    Adorei lembrar que não voltamos para casa NUNCA e a de que aqui estou sempre outro de mim.
    Refrescantes sua histórias, surpreendentes, um banho de chuva na floresta.

  2. Viagens, seu texto propõe viagens que requerem um jogo ideativo, instigantes, tem tantas chaves, nós e as tartarugas, arriscando extinção …

  3. Mais do que o fluir de um lindo conteúdo, o prazer é o fluir da corrente” aquifica” poética do texto.
    Houve um filosofo grego que disse que jamais colocamos o pé na mesma água corrente de um rio.
    Nem a rotina é igual à anterior!
    ( da gaveta pessoal: não acho nem que vamos nem voltamos. Apenas ficamos num tempo emprestado).

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