Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Tomorrow is another day,
por Esther Soares

Claire voltou bastante mexida da Assembleia da Hyperscience. Sabia que bastava um clique em seu minicontroler  e tudo iria para o lugar em seu cérebro. Mas recusava-se a usá-lo. Recusava-se ao risco de destruir sua humanidade e ser invadida por um exército de nanirrobôs criando detritos em suas veias. Esse tinha sido o foco de seu brilhante entrevistado.

Sabia que sua inteligência natural superava a de todos os humanos que conhecia. Queria continuar sendo ela, ela e seu talento, ela e sua competência há tantos anos construindo cognições, amealhando memórias, classificando significações, metáforas e um léxico precioso, sua vaidade. Agora, a distribuição gratuita da “pílula para incrementar a inteligência do povo”, como tinha sido proposto, preocupou-a.

Tudo que era, quem era, tinha sido dura conquista via estudos, pesquisas, mestres, e agora via-se na iminência de ser superada por algumas gramas de toxinas poderosas, conexões imprevisíveis entre sinapses de alguns ignorantes que nunca tinham sido ativadas. – “Justo agora que Julio também anda participando de um grupo de estudos e experimentos na Universidade.” Era visível a angustia de ser ultrapassada, ela, mestra venerada por toda a sociedade do país. Crispava mãos e pele, o corpo se encolhia embrulhado nesse caos de preocupações.

Fora da casa Julio, Juninho e Meg a esperavam:

– O Luc não saiu do quarto hoje!  Disse que não tinha condições de trabalhar.

– Nós tentamos, a Meg e o Juninho tentaram todas as falas, mas ele só dizia que não.

– Depois só ficou repetindo “Quero ser feliz!” “Quero ser feliz!” “Quero ser feliz!”  Nós fechamos a porta, ele ficou lá repetindo e repetindo…

– De repente calou. Mãe, é melhor você ir ver o que está acontecendo com ele.

– Acho melhor a senhora ir lá depois do almoço. O Juninho não pode atrasar, eles vão conhecer aquela nave que chegou de Marte. Depois a senhora vê o que ele anda aprontando. – (Santa Meg, ser humano fiel, responsável, tinha assumido todas as tarefas dela, a rotina da casa andava.)

Ordem na desordem imprevista, Claire procurou contato com Luc: ele tinha tentado desligar-se, o corpo estava desmantelado no chão. Foi preciso conectar a Agencia de Hyper Robôs: o fato era inédito para ela, pediu orientação para conseguir religá-lo. Parecia um mamulengo folklórico, a pele do rosto macilenta, meio murcha, nos olhos o brilho da lágrima oleosa que ela tinha pingado ali.

– Por quê tudo isso, Luc?

– Quero ser feliz. Quero ser feliz. Como vocês. Quero ser feliz. Como os humanos. Quero ser feliz, como os humanos.  – ele repetia sem parar – Quero ser feliz. O que é ser feliz?

Claire convenceu-o a se recompor, prometeu pensar na resposta. Amanhã. Acionou os comandos dele e logo o viu varrendo tranquilamente o jardim. Um robô pode ser feliz? Será possível agora criar uma S.A.? Se é Artificial não pode ser Sensibilidade, palavras contraditórias, ideias antagônicas…

Na cama, desembrulhou-se das complexidades mentais, sensual e saborosa enroscou pernas e braços com o marido já armado, humanos, realizados parceiros de Vida, amaram-se incondicionalmente.

– Amor, o que é ser feliz? Para um androide, o que é a felicidade?

“Amanhã a gente pensa, querida, agora não.”

Sim, talvez amanhã. Ele também não sabia…

Meu pai era um emérito contador de causos, histórias vividas ou presenciadas por ele. Após a refeição, nos aprisionava à volta da mesa apenas com sua retórica mágica. Sempre foi o grande provedor de livros desde minha infância, um incentivador de cultura que nos abriu caminhos para o prazer da leitura.

E eu, muitas vezes ao sair dali, procurando copiar aquela tonalidade lúdica de um encantador de serpentes, como via nele, me propunha a recontar para meus amiguinhos histórias que me emocionavam, livros que lia, filmes a que assistia nas matinês infantis.

Mais tarde percebi que alguns racontos eram fragmentos de vida com todas as características de um conto.  E aproveitei-os, sem constrangimento pela “invasão de privacidade”, mas com a emoção da empatia, da paixão, sem nunca identificar protagonistas verdadeiros nas mágoas e frustrações de meus personagens.

Escrever é pintar com palavras: escrever é pintar, é fotografar, é captar momentos e concretizá-los em palavras e em textos. É criar imagens na percepção interna do leitor.  

Escrever nos faz melhores leitores. Criar personagens é penetrar o misterioso mundo do outro, do diferente, não só compreendê-lo, mas ser capaz de amá-lo. Com empatia. Escrever certamente nos leva a ampliar o conhecimento da psique humana.

Existe um artista em todas as pessoas sensíveis; nem todas produzem Arte, mas são também artistas porque capazes de se emocionar com a Arte que outros produzem ou praticam.

Livros publicados:

  • A Arte de Escrever Histórias, Editora Manole, 2010
  • Era uma vez um gato xadrez, Escrituras Editora, Literatura Infantil em 3ª edição
  • A Mesa, Arranjo e Etiqueta, Manole Editora,  9° edição 2010
  • Marketing Pessoal, sua Importância para o Desenvolvimento Profissional, in Manual do Secretariado Executivo, Editora D’Livros
  • Nós, o gato e outras histórias,  coautora, Contos, Miró Editorial, 2012
  • Inventário das sobras, Escrituras Editora, Contos, 2015
  • Está na mesa, CD, edição da autora 2014
  • Aconteceu no Vale do Paraiba, coautora, contos
  • Disco de cartolina, poemas, Editora Pólen, 2016
  • Cento e oitenta graus, org. coautora, Editora Pandorga


3 comments

  1. bem ali na fronteira entre o humano e o não-humano!
    sensibilidade artificial – pode isto?
    ​​​​​​​paradoxos contemporâneos…

  2. Desejo de ser feliz, angústia de não ser feliz, pobre Luc.
    Pobre Claire, tão aflita, medo de ser ultrapassada, mestra venerada que era… vaidade ferida machuca.
    Acionado os controles, Luc encontra a paz.
    Claire encontrou a paz enroscada no marido.
    Façam suas escolhas…

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