Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Trecho de um longo poema, por Luiz Sampaio

“Trecho do poema
Vladímir Ilitch Lénin
ou Criador e Criatura
ou Valódia e Eu

Escondidas no silêncio de suas existências,
as palavras são esquivas, ariscas, escorregadias…
Vamos a elas sem golpes, com cautela,
explicando baixinho : “Não se assustem! Não tenham medo!
Somos nós, os poetas!”
“Nós podemos eternizá-las em troca de uma única gota
do seu oceano de eternidade!”
As palavras são como pássaros, Poeta,
que a gente pegasse com as mãos:
primeiro se assustam, se debatem, se paralisam,
até relaxarem a pulsação.
Quando repousam a cabeça e cochilam,
é sinal de que o milagre aconteceu:
No calor, no conforto, se aninham e se acomodam
– elas aos sons irmãos das companheiras
– eles ao calor confiável das mãos
– eles para o céu infinito
– elas para o mundo eterno dos sons

E as palavras são vaidosas, Poeta:
criam caso, sugerem, discutem,
esmiúçam o seu papel
e apenas se aceitam em convívio,
somente se abraçam em poema,
átomos do nosso aço,
se bem convencidas de sua importância
de criadoras e criação.
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LUIZ SAMPAIO – “Sou as palavras que sou. Cresci entre leitores e livros. Aos nove anos ganhei um diário encadernado em azul, com a palavra “Pensamentos”. Ali copiei poemas e me dediquei a grafar os sentimentos que me afligiam. Nunca mais parei. Estudei literatura, sonhando-me poeta. Sigo vivo e ativo na sonora companhia das minhas palavras. Minha canoa do amor não se espatifou no cotidiano.”

2 comments

  1. Querido Luiz, que grande poeta você é! Só um poeta como você para ter tanto cuidado, carinho, atenção, preocupação, interesse pelas palavras. Elas alimentam o seu poetar e devolvem o carinho que dispensa a elas, se organizando de modo a nos deixar usufruir, nós leitores, da relação de vocês. Um poeta e seus amigos: palavras, sons, silêncios, pausas, brincadeiras de esconde – esconde. Um prazer!

  2. Luiz,

    seus dois poemas são muito lindos, muito claros e transparentemente amorosos, nada escondido.
    há calor em cada palavra: poeta de carne , caneta e papel.
    Obrigada. Continue nos presenteando com eles. Não temos poetas entre nós do fifties.
    Um abraço amigo
    Bettina

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