Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Um dia comum de uma pessoa comum em idade comum na velhecência contemporânea,
por Liliana Wahba

Estaria chovendo ou era o zumbido proveniente de conexões do cérebro buscando seus terminais de acesso? Despertando aos poucos era difícil definir. Pronto, acordei! Disposta, sempre disposta, apesar de ter dormido inquieta e tensa, a lombar assinalando um achatamento e querendo entortar, dói, um pouco. Sempre disposta!

Os olhos se embaçam, melhor a chuva do que essa claridade que ofusca. O que pensava antes de adormecer? Não quer saber, quer; o pensamento se intromete no planejamento  diário; era isso, brigou com a filha, discussão feia, a filha a chamou do que mesmo? Quer saber, não quer, bem me quer, mal me quer. Deixa para lá. Hoje não, porque é dia de resoluções. Resolver o que mesmo? Anotou em algum papel. Irritada: por que não na agenda ou no celular que tem um espaço de Notas. Porque na hora não dá para abrir a agenda, e os papéis estão ao alcance. Onde, onde? Não vou me irritar, disposta para o dia, vive-se um dia  a cada vez, com plenitude, ainda mais que agora são contados, quantos?

Alongamento, alongamentos são saudáveis antes do copo de água morna com limão, horrível; é saudável e notou benefícios quando seguido de suco verde de espinafre, mais horrível ainda. Enumerar os benefícios reais: quais, a ciência tampouco é exata, mas comprova. Faz bem.

O tempo reservado para a meditação foi esgotado no telefonema ao encanador, demorou mais do que o previsto. Mais um dia sem meditação; amanhã; amanhã vou conseguir, espero.

Escolher a roupa e ir para o mundo, a vantagem da idade é que não há dilemas na escolha, não precisa seduzir; alívio. A echarpe laranja ou verde? Verde combina com os olhos, ainda esverdeados, por vezes reluzentes, por vezes, hoje, nem tanto.

Sai decidida e disposta, eis a energia do suco verde. O que era tão prioritário? Não achou a anotação, dispersa como dispersos eram os pensamentos; amanhã vou meditar; o que custa reservar meia hora? O que faço nessa meia hora que me engole e passa, como passa a vida e de repente acaba, sem aviso e sem oportunidade de refazer, de recriar. Devaneando, de novo, foco: precisa foco, o curso de longevidade do cérebro ensinou. Imprescindível para envelhecer com saúde, oxímoro, também aprendeu a palavra no curso de terceira idade.

Dirigindo até o dentista notou que esquecera o celular. Teve que voltar, sem celular sou imprestável, e se minha filha quiser se desculpar? Do que era mesmo que me chamou? E nele anoto o que antes escrevia em agendinhas, todas coloridas, espalhadas em gavetas e armários.

Um ato seguiu-se a outro, assim como os afetos, e à meia noite apagou a luz de cabeceira: foi um bom dia, mantive a disposição, a lombar segurou, quase nada de dor, minha filha não ligou, da próxima vez que me chamar de algo vou escrever na agenda.

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LILIANA LIVIANO WAHBA – Psicanalista junguiana. Profa Dra da PUC-SP. Diretora de Psicologia da Associação Ser em Cena – Teatro de Afásicos. Autora de Camille Claudel: Criação e Loucura.


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