Este artigo é parte do Clube dos Escritores Cia os ZZZLOTS!, Andai Duck!

Vamos falar de morte…e de patos?

Surpreendentemente, mesmo entre os maiores de 50 (que deveriam já ir se acostumando com a ideia), só pensar em falar de morte já provoca incômodos. “Sai azar!” “Xô!” “Ei, vamos falar de alguma coisa assim mais alegrinha?”

Pois então, para Sergio Zlotnic, psicanalista e autor do livro “Baleia Azul”, que deu origem à peça Andai, Duck!, em cartaz em São Paulo, a morte não é nem triste, nem alegrinha, é  um monumental equívoco verbal! Não conseguimos falar da morte e porque, em nossa teimosia meio arrogante, insistimos em tentar penetrar neste inapreensível mistério, fazemos um bocado de confusão!

A morte, relaxem querides, é só mais uma das coisas que simplesmente não compreendemos. Um equívoco, portanto. Como outros tantos que a nossa fala revela, esconde, disfarça.

Ao construir sua história em cima desses equívocos do discurso, Sergio dá um nó cego na nossa imaginação. Diante desse desafio humano essencial que é a linguagem e do nosso esforço colossal de nomear tudo, ele nos oferece um passeio pelos avessos da nossa fala e faz rir e chorar quase que ao mesmo tempo. E tudo começa com um pato que morre, mas não vou contar para não estragar seu prazer!

Uma proposta: em vez dos aplausos entusiasmados da plateia quando a peça acaba, deveriam propor uma espécie de ‘flash mob’ e convidar todas as pessoas a gritarem ‘quá!” E ponto final!
A peça está em cartaz até o final do mês em São Paulo, no Teatro Sergio Cardoso. E vale a pena assistir, tenha você mais de 50 ou muito menos!

Comentário de Liliana Wahba, psicóloga junguiana, que também faz parte do Clube dos Escritores e que também estava na plateia ontem:

Ótimos atores. Uma narrativa que trata de memórias primordiais, na palavra enunciada e na palavra engasgada. Como falar sobre perdas? Como contê-las em noções expressas? A palavra se faz imagem e vice versa. Corporifica. Entre o não dito é o dito forjado, imposto – proverbial e repetitivo, aprendido convencionalmente, transita algo de inusitado, pois ali mora a inventividade e o frescor do novo. O duck/pato – figura que não povoa nossas mitologias – se transforma em psicopompo, aquele que transita entre o mundo dos vivos e dos mortos. Sobre os ausentes, cito Thornton Wilder: “There is a land of the living and a land of the dead, and the bridge is love, the only survival, the only meaning”.

Segue a ficha técnica para você organizar sua agenda:

“Andai, Duck!”

Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno –
Rua Rui Barbosa 153 – Bela Vista – São Paulo – SP – Tel 32880136 – Sextas, sábados e domingos às 20 hs – de 13/01 a 28/01 – R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia) – Classificação: 12 anos.

Ficha técnica:
Cia os ZZZLOTS!
Texto: Sergio Zlotnic
Direção: Guilherme Udo e Sergio Zlotnic
Assistência de direção: Rafael Costa
Elenco: Alberto Pereira Jr., Marcela Artusi, Marcelo Coelho, Rafael Costa, Rodrigo Melgaço e Sergio Zlotnic
Luz: Hamilton Carlos Coelho e Tom Vieira
Som: Alex Matos e René de Carvalho
Cenário: Pedro Cipis e Tomas Santos do Amaral
Arte Gráfica: Pedro Cipis
Produção e Assessoria de Imprensa: Alberto Pereira Jr.

Sinopse: O espetáculo “ANDAI, DUCK!” examina as perplexidades diante da morte – e sublinha o processo de luto, fazendo-o equivaler, numa metáfora, a um passeio pela língua materna. A pesquisa é sequência de trabalho anterior da Cia. Os ZZZlots (“Berenice Morre”, 2016), em que o tema da finitude foi também explorado. Na nova montagem, inspirada no livro “baleiazzzul” (ed. Hedra, 2013), de Sergio Zlotnic, o luto é vinculado à construção de dicionários impregnados de sotaque, por assim dizer; pois o legado que os mortos queridos nos deixam é sempre um léxico singular a ser revisitado. A investigação de linguagem desenvolvida em “ANDAI, DUCK!” faz uso de várias escolas dramatúrgicas, da narratividade à palestra/performance.

 

2 comments

  1. Ótima resenha, Adilia, em poucas palavras, ah! sempre as palavras! fala quase tudo o que Andai Duck nos proporciona. Liliana, em mais palavras, enriquece o espetáculo que vimos e introduz o psicopompo, figura que vem para fazer confusão e abrir novos caminhos.
    Eu, ah! em mais palavras! concordo com tudo! Língua materna, luto, milhares de léxicos que nos constituem. Quem somos?
    Parabéns ao diretor e à trupe, que não se preocupam em fechar a questão.
    .

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