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A velhice de Fernanda Torres

Saiu o primeiro romance de Fernanda Torres. “Fim” conta as histórias de cinco velhos amigos. O personagem principal, no entanto, é a velhice.

As crônicas quinzenais publicadas na Folha de São Paulo já anunciavam o estilo. Nos artigos para a revista Piauí, sua assinatura e esse jeito de ser densa sem chatice ficou ainda mais clara. Agora, o romance “Fim”,  lançado essa semana pela Companhia das Letras, revela a escritora. Fernanda Torres, filha de Fernando Torres e Fernanda Montenegro, criada nos bastidores de teatros, mergulhada na dramaturgia, cercada por grandes escritores, poetas, intelectuais de toda sorte, não poderia resultar em alguém menos do que… Fernanda Torres!

O romance de Fernanda Torres já anuncia no título o tom nada romântico do que vamos encontrar lá dentro.
O romance de Fernanda Torres já anuncia no título o tom nada romântico do que vamos encontrar lá dentro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vizinhança dos 50 anos — ela está nos 48 — talvez tenha provocado na autora um olhar para a finitude. Ela foi espiar a antessala de embarque para o além. Os personagens inspirados na geração dos pais, todos beirando os 80, traduzem alguns modelos de velhice que povoam os nossos tempos e vitimam até mesmo gente inteligente, criativa e batalhadora, portadores de currículo bem bacanas.  Tem o homem atormentado, o conquistador, o velho doente, o viciado em drogas e sexo, o atlético, o careta.  Essa fauna vive da melancolia do passado no apesar da aparente alegria que domina o cenário luminoso e boêmio de Copacabana. Amores, carreira, família — é uma coleções de frustrações, neurose e desencanto que pintam inclusive o retrato das mulheres. No entanto, as lembranças dessa turma nos permite reviver os “áureos tempos” em que intelectuais brasileiros participavam de uma verdadeira reviravolta na cultura do país.

A atriz consagrada por séries de TV como “Os Normais” e “Tapas & Beijos”, da Globo, está cada vez mais escritora, desde que começou a produzir textos para aproveitar o tempo de espera em sua última gravidez, há seis anos. Do teatro não se afastou definitivamente — deve estrear a remontagem de “Budas Ditosos”, monólogo baseada no romance de João Ubaldo Ribeiro, nesse final de ano em São Paulo.

Na minha modesta opinião, peça e livro merecem sua atenção.  Nem uma nem o outro representam um entretenimento fácil, do tipo comédias  de costumes que assolam nossas salas de cinema. Pensar na velhice do jeito que ela é, com suas angústias e perdas, guiada por alguém que tem o que dizer, pode nos ajudar a reinventar a nossa própria trajetória sem ilusões mas com esperança.

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