Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Visita aos leitos, por Liliana Wahba

Hospital público vinculado a uma faculdade de medicina de excelência e prestígio, com professores especialistas e pesquisadores renomados. Os estudantes inquietos aguardavam o professor mestre para acompanhá-lo na visita aos leitos. Oportunidade única de aprendizado com um médico de destaque internacional em pneumologia e reabilitação cardiometabólica.

O professor avançou em direção à roda de alunos sem se deter, avental branco impecável, estetoscópio no bolso, cabelos grisalhos os olhos cinza claro parecendo atravessar quem estivesse à frente, indagativos. Os alunos se agruparam rapidamente em torno dele, apreensivos, pois sabiam que costumava disparar perguntas sem aguardar a reposta se esta não viesse de imediato.

A reação era peculiar: fazia a pergunta, acenava afirmativamente se a resposta fosse correta e ignorava quem hesitasse ou errasse, tornando-o inexistente, o que invariavelmente fazia com este ficasse para trás, sem sequer perceber que se sentira humilhado. Portanto, a ansiedade era acompanhada de expectativa, de desejo imenso de aprender e de ter um futuro semelhante àquelas figuras admiradas e repletas de saber e de arsenal a ser usado para o bem da humanidade.

No grupo, tranquila em gestos apesar dos passos rápidos e olhar curioso, Asa ouvia atenta as explicações do professor em cada leito e as interpelações aos colegas, em geral bem sucedidas; era um dos grupos notáveis, dedicados, estudiosos, imbuídos da missão de cuidar seus semelhantes. Alguns leitos sucederam-se, doentes anônimos, doenças importantes; com estas aprenderiam como identificar, combater, tratar, salvar.

Estavam empolgados, nesse dia nenhum ficou para trás. Asa seguia a trajetória com interesse e uma vaga noção de que algo faltava, pensou ser saudade de casa, pois viera estudar de outro estado, mas afastou a sensação e prosseguiu orgulhosa de si, estava entre os melhores, com o melhor dos mestres. As visitas passaram rápido, estavam frente ao último leito. O ritual repetiu-se, o círculo em volta e o professor na cabeceira, todos de pé, alertas, inalando cada palavra dele, treinando a mente, aguçando o raciocínio e a memória.

Um homem de meia idade, uns 60 anos; devia ter sido um homem forte e grande, agora com aquele pijama bege, magro, tinha encolhido; o rosto endurecido, um fisgar talvez de dor ou mal-estar na boca cerrada, olhar distante, braços ao lado do corpo como que tendo desistido de querer alcançar, perdido talvez nas lembranças ou com elas apagadas; o que se passava na sua mente? Ninguém lhe perguntara e ele não parecia ter o que responder.

Diferentemente das perguntas certeiras lançadas pelo professor e as respostas esperadas, dele não se esperava nenhuma, nenhuma definiria sua humanidade; era um doente do leito 34, com uma ficha ao pé da cama, o doente 34, internado havia três semanas com embolia pulmonar, médio para alto risco, que o tratamento eficiente tinha diminuído para baixo risco.

O médico abriu-lhe a camisa, olhando diretamente a ficha após o qual aplicou o estetoscópio ao peito e enunciou os termos oniscientes: “taquipnéia, taquicardia, precisa verificar retração de músculos das costelas, não apresentou hipoxemia, cardiopatia válvula tricúspide”, e a pergunta súbita ao mais sério do grupo: qual exame precisa ser reforçado para cardiopatia?

Asa tinha estudado esses testes sanguíneos: peptídeo natiurético tipo-B, mas não quis afrontar o colega que não teve tempo de responder; o professor já se afastara do leito, ao que todos correram atrás. Movimentou-se para segui-los e deu um passo recuando, procurou o olhar do paciente que continuava alheio, o corpo sem se mover e a respiração curta; aproximou-se dele e, criando asas nas mãos, fechou delicadamente o pijama aberto protegendo o peito exposto.

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