Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50 mais Lourdes Gutierres A Chaminé Região_Interna_do_Quartel_da_Rota.Wikipedia

A chaminé,
por Lourdes Gutierres

E saímos por São Paulo ao encontro de espaços recolhidos do olhar raso. Chegamos ao Quartel da Rota, no bairro da Luz, fortaleza de vasta área, projetada por Ramos de Azevedo, que trazia para a cidade modelos de construções europeias do século XIX. A edificação em quadrado perfeito teve por inspiração o prédio da Legião Estrangeira de Marrocos, inclusive o colorido de suas paredes, amarelo mostarda, usado lá para confundir-se com a paisagem desértica. Em todo seu perímetro, foi construído um túnel subterrâneo que comunicava quartéis, penitenciária, estação de trem. Tinha por finalidade ser rota de fuga e treinamento.  Em seu interior, celas abrigavam prisioneiros. Atualmente, foi transformado em museu.

No pátio interno, homens fortes praticavam exercícios, corriam, faziam flexões ao lado de inúmeros carros robustos e lustrosos. Observá-los não estava em nosso roteiro, embora a cena fosse interessante. Então, seguimos em direção ao subsolo, onde nos deparamos com caminhos estreitos de tijolos expostos, aberturas em arcos. Não saberia especificar se foi o tipo de construção, a umidade, a ausência de ventilação natural, o certo é que me senti transportada para cenários de filmes de suspense, mistério, onde corvos estridentes e endoidecidos poderiam sair de seus esconderijos e vir, subitamente, ao nosso encontro. Temor? Nem um pouco, logo reconheci que estava movida por certo encanto cinematográfico.  De qualquer forma, fica o registro para cineastas, o local é inspirador. A visita era guiada por um oficial habilidoso, logo de início teve de lidar com um problema inesperado: a senhora de vestido marrom, ao meu lado, começou a passar mal, dizia ter falta de ar, teve de ser retirada, era claustrofóbica, explicou a amiga.  

O túnel nos pareceu imenso mas já foi bem maior, teve obstruções, uma delas devido a obras da linha do Metrô na avenida Tiradentes. Atenta às explicações do guia, tentava anotar detalhes da construção e das peças militares ali expostas, entretanto, ruídos se intercalavam: a mulher reclamando de seus calçados, o choro  da criança no carrinho, a fala nervosa da mãe ao celular. Comentários insossos de dois rapazes com sotaques interioranos fez-me lembrar de um tio que tinha o costume de contar piadas em velórios, era inadequado como ele só! Comecei imaginar a possibilidade de percorrer sozinha  aquele  espaço de grades, curvas e reentrâncias, sentia estar dentro de um baú de memória. Aqueles objetos expostos no chão e nas paredes pareciam ávidos para contar coisas que talvez não constem nos anais.  Em um canto, estavam instrumentos que foram levados pelos soldados paulistas na Guerra de Canudos; isolados e sombrios saltavam lembranças, quais? Uma das conexões do túnel era com o Presídio Tiradentes, usado como prisão política. Por ali, torturas, mortes, sumiços, como se deu isto?  O Quartel foi tomado na Revolução de 1924, o que aconteceu naquele subterrâneo?  A respeito desse movimento, fomos informados de que na rua ao lado podia- se ver sinais da batalha travada ali entre militares rebeldes e tropas federais, estavam na chaminé de uma antiga usina de energia elétrica.

Como aquele tema não despertara interesse a mais ninguém, pude permanecer algum tempo diante da usina, tentando reconstituir o cenário daquela guerra civil. Difícil imaginar que na mesma nação, grupos se digladiam, tornando-se inimigos a serem eliminados violentamente. Naquela rua, ficaram posicionados tanques de guerra com soldados atirando para matar os militares alojados no Quartel, que por sua vez, revidavam.

Naquele momento, percebi a importância do que estava diante de mim: a testemunha desse combate, a chaminé ferida. O que teria a me dizer? Era responsável por gerar energia da região, tinha potência, vigor, até mesmo certa elegância, de repente, estilhaços detonando o sentido de sua existência. Talvez guardasse em si certa perplexidade. Talvez naquele momento tivesse gritado: “Parem com isso!  Que barbaridade!” E como irmã mais velha, gostaria, quem sabe, de ter colocado todos enfileirados, um em frente ao outro, para que pedissem desculpas e fizessem as pazes, ralhando com todos: “ Onde já se viu uma coisa dessas, irmão contra irmão!”

Agora, a chaminé permanece ali, em silêncio, quase nem é notada.  Procurei indagar conhecidos e familiares a respeito de seu significado. Chaminé, onde? Revolução, qual? A maioria  lembrava  da Revolução de 1932, porque é comemorada na cidade.  Apenas  um amigo que mora na Mooca, guardava lembranças deixadas pelo seu avô. 

Naquele ano, 1924, o inverno havia sido rigoroso, galhos secos pendiam aqui e acolá e os tanques de guerra iam esmagando as folhas amareladas no chão úmido e frio. O conflito começou em 5 de julho e durou vinte e três dias.  O Quartel fora ocupado por um grupo de militares sob o comando do general Isidoro Dias Lopes.

A lente da história aponta que praticamente no mesmo espaço urbano, dois anos antes, acontecia no Teatro Municipal a Semana de Arte Moderna. Como movimentos tão distintos puderam ter acontecido na cidade que já era símbolo de desenvolvimento econômico e cultural?

De um lado, o modernismo convocando artistas de diversas áreas para a busca de novas formas de expressão, mais criativas e vigorosas.  E de outro, o descontentamento com os rumos políticos do país agregando militares em defesa de uma nova forma de governar, ante aquela considerada autoritária e excludente. Julgava-se necessário a deposição do presidente e novo ordenamento jurídico que contemplasse reformas sociais e políticas  relevantes. Constavam da pauta a instituição do voto secreto e a defesa do ensino público.

A cidade contava com um parque industrial considerável e por aqui trabalhavam milhares de imigrantes que haviam deixado suas terras de origem em busca de trabalho e de melhores condições de vida.  A população foi pega de surpresa pelos bombardeios na região central e nos bairros operários.  Quem tinha condições,  tratou de buscar refúgio fora da área de conflito. A maioria não tinha para onde fugir e acabou sendo afetada pela violência, fome, isolamento.  No auge do desespero, muitos começaram a saquear armazéns, lojas, em busca de alimentos e outras necessidades básicas. Foram instalados alojamentos, centros de atendimento médico.  Refeições eram distribuídas aos moradores, em meio aos tiroteios.

E tragédia maior aconteceu: a cidade começou a sofrer bombardeio aéreo. Bombas foram lançadas de forma indiscriminada, matando a população civil, destruindo moradias, destroçando abrigos, arrebentando fábricas.

Nas anotações de seu Pepe,  avô de meu amigo, estavam algumas referentes a esse episódio. Contava da dificuldade da vizinha  em  explicar para o neto porque não podia sair do porão, onde a família se escondera. Falou do desespero de uma idosa, dona Concheta ao escrever uma carta para a filha: “as bombas estão cada vez mais perto, estou com muito medo, venha me buscar”. Uma dessas bombas, anotou, caiu bem no galinheiro de seu Paco, acabou com as galinhas e deixou o cachorro, Duque, inerte numa poça de sangue. A frase terminava com expressões: “Covardes! Assassinos! Insanos!” Se não fossem os problemas de saúde – estava com tuberculose, iria se alistar para ajudar os rebeldes, assegurou. Era um anarquista convicto, me disse o amigo.

 O seu Pepe como tantos outros imigrantes trouxeram para cá os ideais de seus países de origem.  Os anarquistas procuraram se unir como uma força política ao movimento rebelde mas queriam atuar de forma independente, o que não foi aceito pelo comando da rebelião. Individualmente, muitos aderiram à causa, acreditando que poderia beneficiar os trabalhadores. A elite econômica e política manteve-se como espectadora, não lhe coube o protagonismo.    

Enquanto os modernistas inspiravam-se em estéticas civilizatórias, os generais foram buscar inspiração na barbárie, copiando o método de  bombardeio terrificante empregado pelos alemães na primeira guerra mundial, qual seja, bombas lançadas a esmo contra a população civil, como forma  de causar pânico e terror. Mas não estava em vigor a Convenção de Haia, para proteger  os não combatentes? Estava.

Sem abertura de negociação ou diálogo, o comando das forças federais anunciou que a cidade toda seria destruída pelo bombardeio. Em termos de poderio bélico, os rebeldes não tinham condições de competir, então,  ante a ameaça sinistra, optaram pela rendição.  Seguiram em direção ao sul do país, girando a roda da história rumo à Coluna Prestes e à Revolução de 1930.

Perdas, lágrimas, gemidos, este saldo de dor não foi contabilizado. Há registro de mortos: 503; de feridos: 4.846; de desabrigados: 20 mil. Estes números podem ser maiores,  segundo alguns historiadores. 

Outro dia, voltei ao local da antiga usina elétrica. O sol brilhava naquela manhã de verão, a marca de bala na chaminé reluzia feixes luminosos na forma de um cone que se projetava para o céu. Acreditei estar diante de uma alucinação, entretanto, um senhor de terno e gravata postou-se ao meu lado, ficou admirando em silêncio. Depois foram chegando outras pessoas, um grupo de estudantes, a senhora com sacolas de compras, até que se formou ali certa aglomeração. Todos com olhares fixos no cone que projetava cores de um prisma na atmosfera:  vermelho, amarelo, verde, azul, de intensidade variada. A estudante de mochila nas costas rompeu o silêncio e declarou:

 – Isto é um sinal! Um sinal! 

11 comments

  1. Adorei a sua crônica, Lourdes. Eu adoro a história do Brasil e não conhecia nada sobre a revolução de 1924 em São Paulo(Que vergonha! Nem sabia que havia acontecido). Gostei da forma como você contou essa história. O quartel da Rota se junta à Casa Mário de Andrade, na Barra Funda, como as minhas duas prioridades na próxima ida a São Paulo. Conte-nos mais dessa cidade fascinante.
    Abraço!
    Luciano

  2. Delícia de crônica, Lourdes. O Quartel “marroquino” da Rota, guardião de tantas violências, resiste ali, aparentemente engolfado e adormecido pela metrópole. Aparência apenas: o ódio entre brasileiros subsiste. Resistir é preciso.

  3. Oi Loudes. Muito bom. A década de 20 foi tumultuada,principalmente com revoltas , e a de 1924 quase não é lembrada..Muita boa a descrição e comentário sobre o prédio.Continue

  4. Lourdes, você sabe contar nossa História maravilhosamente bem. Eu nada conhecia sobre a Revolução de 1924. Obrigada por nos trazer informações tão enriquecedoras para compreender o que pode voltar a acontecer em nosso País tão duramente castigado pela peste e pelo descaso.
    Traga-nos mais e mais. Sua escritura é tão empolgante que parece que sou partícipe dos acontecimentos. Meus aplausos para você.

  5. Lourdes, a sua crônica descreveu em detalhes acontecimentos de nossa história que eu não conhecia. Despertou me a curiosidade em saber mais a fundo este episódio. Em alguns momentos me senti como se estivesse em seu lugar, vivenciando este passeio!!! Parabéns pela crônica!!

  6. Lourdes, há desconsolo e prazer em ler seu texto. Desconsolo por perceber que a história se repete e pouco se aprende com as experiências. Essa manutenção irracional e terrível de achar que os grandes propósitos podem subjugar as pequenas esperanças, os desejos menores e as conquistas cotidianas. Prazer por sua escrita excepcional que ilumina os meandros de nossa condição humana e nos traz um pouco de alento. Seu olhar é um guia. Grato.

  7. Crônica magnífica, rica em detalhes. Eu tive conhecimento da Revolução de 24,através de minha mãe e quando ela era adolescente
    vivia numa chácara , nas cercanias da capital, onde meu avô plantava , senão estou enganada, tomates e os feirantes ou compradores dessa mercadoria iam adquirir tomates lá na chácara e eles narravam episódios terríveis dessa revolução. Na escola eu nada aprendi sobre ela. E agora a Lourdes nos enriquece com essa explendida narração !

  8. Modo cativante e intenso de contar uma história, esta se faz presente nas memórias, nos espaços, no subsolo e nas alturas. O tempo revive, a insanidade do ódio, a presença do que nos constitui.

  9. Lourdes querida, linda crônica!
    Meu avo paterno lutou nessa revolução e sua crônica fez com que eu tivesse uma outra longa conversa com meu pai sobre esse episódio. Muito obrigada!

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