Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Paulo Akira Ícaro

a estética de Ícaro,
um conto-mitológico de Paulo Akira

Εra sonho de Dédalo que seu filho, Ícaro, pudesse voar. Portanto, desde pequeno ensinara-lhe os rudimentos da aerodinâmica: abriam os membros e exercitavam os músculos peitorais; sincronizavam as respirações; postavam-se sobre o topo de um dos muros do labirinto de ruas, de onde podiam ver o hori-zonte e, com os pés unidos, esticavam e afrouxavam os tendões dos joelhos, assemelhando-se, nesse sobe e desce, ao revoar das galinhas; batiam e rebatiam as palmas das mãos abertas nas laterais das coxas. A cada estalo Dédalo repetia:


– Um: inspiração. Dois: expiração. Um! Dois! Mais força, Ícaro! Mais força!


Dessa forma passaram anos em malabarismos metódicos e, aos poucos, seus corpos acostumaram-se às correntezas ternas do vento.


Um dia, ultrapassado o ponto de desistência, ambos foram ao edifício mais alto e atiraram-se ao vazio. Na queda agitaram nervosa e fortemente os antebraços que ondulavam sob a pressão do ar. A caída, então, diminuiu de intensidade e seus corpos começaram a levitar, sustentados, agora, pelo vaivém constante e harmônico dos ombros.


Ícaro, lá do alto, sentiu a necessidade de mostrar sua capacidade rara e alienígena, enquanto seu pai, mais poderoso de músculos, deslizava entre nuvens mais elevadas. Girou o punho, emparelhando as falanges ao vento, alinhou os calcâneos contra as correntes térmicas e desceu velozmente como um asteróide, resvalando as cabeças dos pedestres embaixo.


Olhares constrangidos estranharam os movimentos esdrúxulos de pernas e cotovelos e fuzilaram daquela agitação juvenil. A pulsação ritmada do fôlego e o som agudo do rastilho incomodaram todos os transeuntes. A repulsa juntou-se à multidão, considerando a leveza dessa coisa um desafio ao que era natural e fluente no ser humano. Consequentemente, a prolongada aversão das pessoas absorveu as forças de Ícaro e, numa exibição precipitada, na demonstra-ção de um “loop” mais alongado, seu corpo despencou como chumbo e estatelou no asfalto.


A última coisa que viu, através da névoa avermelhada dos olhos, foi a silhueta indiferente de Dédalo, distante e mínima no céu aberto, alcançando o limiar da transcendência, movimentando seus braços despidos de penas e cera, cujo uso – Ícaro pensou – talvez ainda fosse mais propício àquele estágio do homem.

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