Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Paulo Akira A lógica de Penélope

a Lógica de Penélope, segundo Paulo Akira

Embora Penélope desfizesse seu trabalho com muito cuidado e oculta aos olhares incômodos, eu percebia a lentidão com que se encaminhava o término de sua promessa. Os fios em determinados segmentos da tapeçaria en-contravam-se, às vezes, repostos em outros lugares da peça, de tal forma que aquilo me pareceu um cruel ardil feminino.

Escondido pela escuridão das cortinas pendentes em seu quarto, deixei a mulher reiniciar o engodo e, espreitando as luzes trêmulas das lampari-nas nas paredes, esperei a hora certa de me aproximar. Quando Penélope, segu-rando uma agulha de ponta serrada, já tinha desmanchado cerca de dez pontos da lateral, dei um passo adiante e firmei-me, descortinando minha sombra que se foi pregar nas bordas da tela estendida no bastidor. A mulher engoliu um susto dissimulado, baixou os braços e, rapidamente, dirigiu-me seus olhos, interro-gando-me antes mesmo que seus lábios pudessem proferir qualquer sentença. Eu, preparado para a surpresa e aguçado pelo momento de desarmá-la, fui mais rápido: – Espera! Sou um de teus pretendentes. Um daqueles lunáticos que há meses espera uma promessa ser cumprida. Um dos idiotas que passa dias em vigília na soleira de teu quarto, afogando em bebidas os desejos incontidos, exci-tado pela beleza extrema que a senhora teima em conservar e ver refletida nos olhos dos tolos. Vejo, no entanto, que a nossa fidelidade, que desdenha outros corpos e outros aromas, não foi suficiente para sensibilizá-la, e trai-nos, agora, com a mais vil das trapaças.

– Creio, senhor – ela me disse, prontamente refeita do susto – que o que percebes no meu ato é somente um ardil porque tua vista está encoberta pela raiva e pela impaciência. Não percebes, porém, o outro lado da moeda, o que lhe interessa e lhe apraz.


– Como!? – retruquei – se o que fazes não é nada mais do que des-fazeres à noite o que fazes de dia, adiando até o infinito a decisão de alimentar um desejo faminto.


– Teu desejo, senhor, ou desejo de todos?… O que não percebes no que faço é que faço pelo teu desejo… e desejo de todos. Pensa comigo, meu pre-tendente: o senhor poderia não ser o escolhido, ainda mais com o ponto desfavo-rável que acabas de ganhares. Dessa forma, assim como o senhor, a maioria de vocês veria alçar vôo para as mãos de outro o que tanto desejam em vossas mãos. Mantendo-me atarefada, fingindo sofrer e esperar eternamente por Ulisses e desfazendo um trabalho já feito, permaneço em vossa companhia e vocês des-frutam da minha, ao mesmo tempo que reafirmo a condição de verdadeira mu-lher do Rei aos cochichos das escravas. Os senhores ganham a comida, a bebida, o abrigo e a companhia da mulher que está irremediavelmente presa por uma promessa indestrutível. Além do mais, seria tolo de minha parte supor que um simples artifício, inútil e claramente percebível, fosse enganar os melhores ho-
mens que a Grécia já produziu. Aos olhares de meus pretendentes, percebo que, em sua sensatez, deixam-me continuar com esta futilidade.


Sob tais argumentos, fitando as feições serenas e perfeitas de Penélope, os cabelos dourados e divinamente penteados, ladeando a cabeça ereta e imponente, não consegui distinguir se o que me dizia vinha impresso como ver-dade nas pupilas brilhantes ou se vinha como falso nas sombras de seus compri-dos cílios. Pensei até na delação aos companheiros de espera, mas tal pensamen-to encontrou o obstáculo da credulidade, que muitos, por certo, objetariam a um concorrente. Portanto, cumprimentei-a desculpando-me pela imprudência e saí em direção ao meu quarto, sem conseguir, no entanto, despojar-me da sensação no espírito de que estava trilhando erradamente os caminhos levados adiante pela História, como desfeita do Destino.

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