Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ A morte do mestre Eliane Accioly

A morte do Mestre,
por Eliane Accioly

Me ensinou frestas de montanhas,

do murmúrio dos ribeirões,

ordenhar vacas e ler Kafka

Sobreviver em casa costureira

feminina e desordeira

entre azáfama de tesouras

e frufru de tecidos

Com ele aprendi cercas de maracujá,

flor guardiã dos mistérios gozosos

roxo-amarelos, instrumentos da paixão,

e cheiros machucados

Tivemos lições de caminhar descalços

em caminhos pedregosos,

correr na praia e surfar o mar

Vivemos as artes do amor,

os perigos de curvas umidades

no calor e no frescor de meu corpo

fundido ao dele

Tomamos caipirinhas,

conhecemos vinho branco, tinto, rosado

e desprezamos no copo a borra do conhaque

Viajamos as diferenças entre o deserto

as estradas de terra e de asfalto

e as ruas apinhadas das cidades

Um dia, entretanto, ele que jamais me deixaria

 estende um mapa sobre seus joelhos,

pergunto-lhe: Mapa do quê?

Uma cartografia de pessoas mortas, diz:

Esse ponto rajado aqui embaixo sou eu.

Parecia Kafka ordenhando uma vaca.

Sem acrescentar mais nada

coloca o mapa sob o braço,

e sem outra palavra vai embora

sem se voltar, um tanto claudicante

Por dias e noites mergulho

na tristeza, a mais trágica das criaturas:

o sol não retornaria,

o mestre partiu com o mapa

Contra minha vontade, porém, o sol renasce

uma luz acende

e me humanizo mais um tanto

Me vejo menos alegre, mais desassossegada e

uma inquieta incerteza quando descubro:

a partir de então, ninguém me guiaria

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