Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Bettina Lenci Tinta no dedão

A tinta do dedão,
por Betina Lenci

 “Ao modelar um novo mundo, ela (a letra) deixa sua marca em todos os lugares. Ela luta com a própria substância que metamorfoseia e com a própria forma que transfigura. Treinadora do homem, a mão o multiplica no espaço e no tempo.”    

Trecho do “Elogio de la mano” 1934 Henri Focillon 

Em algum lugar alojou-se a informação grafológica de que a letra é a expressão de nossa individualidade.  Quando minha lembrança se volta para meus pais, fico feliz por ter gravado, no couro que encapa minha memória, suas assinaturas em ouro. Gosto da ideia de que a insigne de nossos antepassados deve ser levada para a eternidade enquanto retratos pintados, fotos, objetos, cartas e a escrita ficam para contar a vida e os feitos. 

Imagino que todas as formas assim expostas ao tempo não fujam aos seus donos e no frio chão da terra os tornem imortais!  

Por que não acreditar que suas assinaturas marcam minha presença neste mundo?  

Estou segura de que a mão escreve a letra do coração. Nas livrarias de que tanto gosto, estou rodeada de livros e de um conjunto de mãos imaginárias que escreveram em múltiplas superfícies, desde os primórdios dos tempos, a história da Humanidade.

Mãos que se prestaram a assinar documentos, a criar histórias e estórias, ricos ensinamentos e a traduzir nossas emoções e sentimentos. Nos livros que as mãos escrevem expressam-se pensamentos que nos orientam desde a mais remota vida nesse planeta até os dias de hoje.  

Por um acaso, num destes passeios por livrarias em busca de nada e tudo, parei para folhear um livro cujo título me chamou atenção: “A Magia do Manuscrito” uma coleção de manu/scritos do colecionador Pedro Correa do Lago. Nessa viagem por entre reproduções de cartas de escritores, artistas, políticos antigos e contemporâneos, encontrei também pergaminhos dos séculos em que só os monges sabiam escrever e partituras assinadas por músicos de todos os tempos.  

Ocorreu-me que a letra nos pertence tanto ou mais que a linguagem de nosso corpo. Ela é a prova viva do tempo transcorrido entre nossa gestação, infância, maturidade e velhice. A letra é uma forma única, intransferível e solitária. 

Hoje, sem dúvida, estes pensamentos pertencem ao século XIX, tão românticos quanto o próprio século! Sabemos que a letra de uma pessoa não será mais a indicação de sua maneira de ser. São todas relativamente iguais, uma vez que hoje se escreve – como última necessidade – em garranchos impossíveis de decifrar. A culpa não pode ser atribuída ao computador e sim à evolução técnica do Homem no Tempo. A escrita perdurou por milhares de anos e não creio que ressuscitará, ao contrário, será reduzida ao mínimo como uma nova escrita próxima à estenografia.  

Para o caso de jovens lerem esse texto sem saber o que significa estenografia, explico: estenografia é uma técnica de escrita que utiliza caracteres abreviados especiais, permitindo que se anotem as palavras com a mesma rapidez que são pronunciadas.  Era uma profissão para secretárias de antigamente, mas como se observa, o antigamente é igual ao hoje. As abreviações do WhatsApp, por exemplo, estão acontecendo em todas as línguas.Assim:  bd, bfs, mt, bj,  kkk, rsrsrs, vamula, dsculp, estão irremediavelmente incorporadas na nossa linguagem whatsapperiana  de comunicação diária.     

Temo que, por meus filhos não mais apreciarem a letra escrita à mão, meus netos perderão a possibilidade de um dia perceberem, através da escrita, seus pais imortais!  É uma hipótese de avó!    

5 comments

  1. Muito bonita sua homenagem à escrita e aos antepassados, somos letra e carne, a digitação abrevia e ao mesmo tempo anula aquilo que perdura gravado. E, kkk, tem abreviações que desconheço! Tem vezes que netos mandam alguma, mas não explicam e fico acanhada em perguntar, vou consultar você! bjos

  2. Betina, excelente notificação de um presente que se distanciou tanto de um passado tão representativo, bonito e porque não sedutor. Verdade, que pena.
    Adoro cartas, bilhetes, recados, tudo o que escrito a mão. Deixa pra lá, comentário de saudosista romântico.

  3. Betina, excelente notificação de um presente que se distanciou tanto de um passado tão representativo, bonito e porque não sedutor. Verdade, que pena.
    Adoro cartas, bilhetes, recados, tudo o que for escrito a mão. Deixa pra lá, comentário de saudosista romântico.

  4. Mais e mais estranho minha letra, que a cada dia aparece de um jeito próprio. Às vezes grande e legível, meio arredondada, cheia de energia; outras vezes diminuída e espremida, outras com dificuldade de completar a palavra, enfraquecida. A letra de minha mãe, elegante, inclinada para o lado direito, a do meio pai mais enérgica, o barulho da pena desenhando a tinta azul escura no papel branco. Bilhetes, cartas, listas de compras, marcas indeléveis de que a pessoa estava ali, na sua letra.

  5. A minha letra é diretamente ligada ao meu estado de espírito. Em dias tensos: tortas, desunidas e desalinhadas; em tardes alegres: redondas, próximas e direcionadas. A minha letra sou eu, como o texto da Bettina nos diz. Estamos perdendo (se já não perdemos) a possibilidade da escrita nos trazer mais do que o conteúdo do texto, um pouco do conteúdo da forma.
    Belo texto, Bettina.

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