Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Sylvia Loeb A visita

A visita,
por Sylvia Loeb

Sempre à noite, meia noite e meia, precisamente.

Da primeira vez, parei de respirar. O som cavernoso, rouquenho vinha do fundo de algum buraco. Não consegui imaginar o que seria, mas era algo grande, disforme, acinzentado, manchado. Silenciava e recomeçava, silenciava e recomeçava com intervalos irregulares. Era uma coisa viva, disso tive certeza, o que me causou mais medo. Depois de um certo tempo, silenciou. Fiquei à espreita, não queria ser surpreendida. Custei a dormir, não consegui mais ler.

Moro sozinha, de modo geral sou destemida, não tenho medo do que não existe, o outro mundo não me assusta.

Pensei que no dia seguinte o mistério estaria resolvido. O dia amanheceu ensolarado, esqueci o assunto.

À noite, ao me preparar para dormir, já deitada, me ajeitando pra ler, novamente o mesmo som. Um gemido, sim, um gemido cavo, triste, escuro, gutural, malcheiroso. Como na noite anterior, silenciava, recomeçava sem pressa a intervalos irregulares, até que silenciou de vez. Senti frio, a pele áspera, medo.

Medo do que? Deveria ser um cachorro grande, doente, com fome, no dia seguinte saberia.

Fui na vizinha perguntar se algum bicho seu estava doente pois fazia duas noites que não parava de gemer. Não tenho mais bicho, amiga, desde que meu gato foi atropelado, nunca mais quis animal algum. A gente se apega muito, não quero sofrer. Contei do som pavoroso das noites passadas, ela não havia percebido nada.

Fui na outra vizinha, a mesma resposta, ela também não tinha bicho em casa. Perguntei pro guarda da rua, pro varredor, pros taxistas que têm ponto diante da minha casa. Ninguém viu nada, ninguém sabia de nada.

Já faz mais de um mês que ele vem me visitar, todas as noites, sempre no mesmo horário.  Nunca se atrasa, nem se adianta. Procurei dormir mais cedo pra despistá-lo, mas à meia noite e meia ele me desperta. Acho que é um macho, mas não tenho certeza, talvez pela voz grave, mas poderia ser uma fêmea, cansada, exausta, rouca de tanto gemer e não ser atendida.

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