Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50 mais Lourdes Gutierres Acrobacias

Acrobacia,
por Lourdes Gutierres

Pretendo desenvolver esta história em três momentos. Acredito conter nela elementos reveladores da psique humana, sobre os quais, estudiosos da matéria poderão discorrer com maior precisão.

No primeiro momento, o desejo de autonomia de uma criança da periferia de São Paulo, expresso na possibilidade de assistir ao circo que se instalara num terreno descampado próximo de sua casa.

    – Mãe, deixa mãe, a Zulmira, a Tonha, a Betinha, todas amigas vão, deixa mãe, o João leva; olha o papel que o palhaço entregou na rua, é o maior espetáculo da Terra, olha mãe, está escrito aqui, deixa mãe, deixa…

Imagine leitor, o significado do circo numa época em que não havia televisão; que as crianças brincavam na rua de roda, corda, amarelinha, enquanto as mães, sentadas nas varandas das casas, costuravam a vida da vizinhança. O evento mais esperado do ano era quando o professor Aristeu  vinha com um projetor e passava filmes mudos numa tela improvisada no meio da rua, onde os moradores se instalavam em suas próprias cadeiras. A criançada não se limitava a assistir, também participava com palmas, risos, assobios – só festa. Por vezes, havia choradeira, como na cena final do filme “Luzes da Cidade”, quando a vendedora de flores reconhece seu benfeitor e diz: “agora eu posso ver”.

A mãe de Joana, esse era o nome de nossa pequena, além de ser muito zelosa em relação à filha, controlava o orçamento doméstico com rigor a fazer inveja a muitos secretários de finanças, afinal, tinha de prestar contas ao dono do dinheiro, o marido, que lhe entregava o ordenado do mês no envelope fechado.  Sem resultado em seus apelos verbais, Joana buscou outra forma de pressão – refugiou-se junto ao galinheiro, no fundo do quintal. A mãe encontrou-a na hora do jantar, insistia para que fosse comer.

    – Não tenho fome nem hoje, nem nunca – dizia repetidas vezes.

Ante a persistência da filha, a mãe acabou por ceder ao seu desejo.

    – Se vier comer, você pode ir amanhã ao circo com seu irmão.

                                                                          ***

No segundo momento, o desejo de felicidade, desenvolvido a partir de uma performance  circense. Confesso que primeiramente, havia pensado tratar-se de desejo de liberdade, talvez por alguma fixação minha quanto ao tema; apurando melhor meus sentidos, concluí que o anseio por ser feliz era preponderante no caso, e que ser ou estar livre, seria um meio e não um fim em si mesmo.  Sentada na arquibancada, Joana espantou-se com os coelhos saindo da cartola, com a imensidão dos elefantes.  Seus olhos rodopiaram quando a  moça do trapézio lançou-se ao ar e um homem de outro lado a segurou pelos braços. Ah, mas o palhaço, este sim fez seu coração disparar rojões. Não conhecia tal alegria, nunca podia gargalhar à vontade, em casa sempre diziam: “muito riso, pouco siso”. Sacudindo-se no banco, ela ria até saltarem lágrimas. Saiu do circo com uma  certeza: seguiria aquele homem em qualquer lugar que ele estivesse, pela vida toda, para sempre; seria a trapezista cor de rosa, passando de um trampolim a outro, a voar, voar, voar…

 Ensaiava sua abordagem em casa:

    – Mãe, deixa ser trapezista, me deixa mãe, é seguro, eu juro; mãe, eu vi, o homem forte protege, deixa mãe.

Joana sabia que não seria fácil; com o pai, não teria que se preocupar, pois quem decidia tudo na casa era a mãe; ensaiava mais argumentos:

    – Prometo ganhar medalha da professora, deixa mãe; prometo passar de ano, limpar o galinheiro, prometo comer quiabo, chouriço, mãe, deixa vai.  

Lembrou-se de algo que poderia ser decisivo:

    – Vou ganhar muito dinheiro, mãe, vamos morar na rua asfaltada, deixa.

 Apesar da pouca idade, ela tinha noção de estratégia, sabia que teria de esperar o momento oportuno; não poderia ser quando sua mãe estivesse pondo roupas no varal, muito menos quando socasse o bife na tábua de carne, nem cortando cebolas; na hora da refeição, nem pensar, todos eram obrigados a mastigar em silêncio; precisava aguardar a hora certa para a abordagem. Acontece que naquela noite caiu uma tempestade, o rio que passava na avenida transbordara; quando o pai viu a água avançando rumo onde moravam, gritou:

    – Vamos embora, rápido, rápido!

Fizeram trouxas com lençóis e levaram tudo que conseguiram carregar. Foram para a casa do tio, no outro lado da cidade. No dia seguinte, o pai veio com a notícia: o vendaval destelhara a casa, ficou inundada, haviam perdido tudo. Tiveram de continuar morando de favor.

                                                                          ***

Agora chegamos ao terceiro momento, com certa lacuna na história; sinta-se convidado a completar com sua imaginação de leitor atento; só posso adiantar que não faltaram vendavais e tempestades na vida da família.

Recentemente, passeando por Moscou, onde a neta estudava Literatura, Joana deparou-se com uma estátua de palhaço na praça. Sentado no chão, apresentava sua dança russa ao público:  pernas agitadas e mãos em batuques, a cabeça para trás – ao mostrar caretas para as nuvens, gargalhava.

Se você visse aquela senhora de corpo avantajado, usando casaco de oncinha, chapéu com enfeites dourados e laço lilás, caminhar de forma leve, solta, graciosa em direção à estátua, jamais imaginaria que ainda se recuperava da cirurgia de prótese no quadril e que até minutos antes, andava com dificuldade, arrastando a perna direita. Embora o palhaço estivesse com as vestes desbotadas, ela o reconheceu. Junto com ele, surgiram naquela praça: o mágico, o elefante, a trapezista – até o algodão doce. Com o coração em acrobacias, chegou perto do seu piolin, sim, era dela – enfim o encontrara. Acredite, ela inclinou-se, e com os lábios bem junto à sua orelha sussurrou:

    – Estou pronta, agora eu posso ir. Vamos!

7 comments

  1. Lourdes, outra jóia esse conto! O leitor entra na estória, torce pela Joana, vibra com ela no circo, se emociona, lembra da sua infância, dos seus sonhos, sofre pelas perdas da família, mas no final, comemora com ela o reencontro do circo, real ou não, mas gratificante. Linda forma de escrever, descrições precisas e panorâmicas, lImagens e cenas se desenrolam, ouvem-se os sons , vibrantes. Revivi o encantamento que o circo me causava! Parabéns!

  2. Todas as crianças se encantam por algum personagem do circo e com Joana não foi diferente. Determinada fomos com olhar atento acompanhar o seu sonho apesar das dificuldades pelo caminho e no final o belo reencontro com os amigos… Parabéns Lourdes 👏minha imaginação vibrou pela Joana!

  3. Ótimo conto, Gugu. Como sempre. Viajei no tempo e também revivi minha infância. Se bem que na minha época já havia televisão. Mas meu pai só pode comprar uma quando eu tinha uns 12 ou 13 anos. Amava ir ao circo e me emocionava com as performances. Parabéns!!! Um abraço. 👏👏👏 (José Paulo Brait, seu fã)

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *