Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Alimento da memória, por Bettina Lenci

Lembranças     

feito jaboticabas

tombam na caçamba,

uma por uma.

 

Salvei-me da rigidez engomada da toalha, das cadeiras incômodas de espaldar alto, das longas esperas até a travessa de comida chegar a  mim, do ruído surdo dos cristais e do incandescente brilho das pratas,  graças a um tecido de parede.

A sala de jantar era grande. Em nossa família burguesa os filhos não eram para ser vistos a não ser na hora das refeições e nesta não se emitia som infantil sem a permissão paterna. Restava aos filhos encontrarem  uma maneira de sobreviver aos jantares diários, sentados entorno do que me parecia ser uma vasta estepe coberta de neve bordada: papai de terno e gravata da qual luzia um ponta de brilhante do alfinete de cobra enrolada (ele era médico), numa cabeceira e mamãe, rígida no espartilho e gola de renda, na outra.

Lá estava ele, o tecido colado nas quatro paredes da nossa sala de jantar, as frutas de diversos tamanhos e origem exótica exalavam cores e aromas que preenchiam os vãos da minha fantasia onde o tédio predominava. Na gama de cores suaves borrada de marrons e beges, entre claros e escuros, predominava a cor vermelha da melancia.

Hoje me ocorre que nós e o tecido éramos uma só e indissolúvel mancha de cores para os meus pais. Ornávamos a mesa e sumíamos, também nós, colados nas paredes da sala de jantar. Ocultamente eu me alimentava das cores e sucos cujas existências transportavam-me para as terras distantes onde elas cresciam. Os tons de carmim, ocres e amarelos me traziam os ventos e camelos do deserto enquanto o vermelho da melancia despertava-me a luxúria proibida dos sentidos.  

O tempo assim quis que o tecido amadurecesse junto comigo, envolvendo as frutas, passo a passo, despreocupadamente, até desaparecer todo o contorno do desenho e tornar-se  uma  grande mancha de cor lavada. Hoje a lembrança importante é o preto que outrora delineava as frutas na tigela.

Sobrevivi à última grande guerra sustentando-me, durante o cativeiro, com o sabor infantil das frutas pintadas na sala de jantar até o momento em que o sofrimento físico esgotou o seu poder de regeneração. Joguei tudo fora e dei lugar à devastação e o vazio.

Findo o pesadelo, em busca de algum pilar familiar, encontrei-me no passado, na sala de jantar da minha família.  Vaguei por entre os escombros e meus sentidos  lentamente começaram a destilar os sons e sabores, cores e formas enraizadas em algum lugar desconhecido dentro de mim e tudo começou a girar num turbilhão musical onde a vida iniciava uma renovada trajetória.

Ali, desequilibradamente em pé como um pássaro em busca de um pouso num quebradiço galho sem folhas, desejei não ter experimentado o quanto nos é possível sofrer. Desejei que o passado se tornasse uma passagem muito estreita, entre dois desfiladeiros. Desejei aspirar o suspiro de alegria para trazê-lo junto do meu vazio necessitado de companhia.  

Mas algo de extraordinário aconteceu. Enquanto perambulava recompondo as paredes inexistentes de um lar, eis que vejo, despontado como uma miragem na lua, como uma flor murcha na rocha, um  pedaço do tecido de frutas.  De relance o lustre de cristal se iluminou, o branco que  antes eram estepes tediosas tornou-se toalha engomada, a prata reluzente piscava intermitente, os pratos de borda dourada expandiram-se em círculos luminosos, pais e irmãos voltaram a se sentar em volta da grande mesa. Avidamente descasquei os maracujás e laranjas, chupei as uvas e mastiguei a melancia, cuspi os caroços.

Eu as comi de memória, uma por uma junto com o strudel de maçã quente com chantilly que chegava na hora da sobremesa: as frutas pintadas do tecido eram minhas, só minhas porque  sempre as imaginei minhas. Na sala de jantar ruída, convidei-as para acompanhar a minha vida como quando as carregava dentro de mim para a escola, para a beira da cama, para o parque. Esfomeada, as reminiscências alimentaram estômago e alma.  

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