Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores 50+ Liliana Wahba Arvore da felicidade

Árvore da felicidade,
por Liliana Wahba

A árvore da felicidade a acompanhava havia 30 anos. Altura até o teto, frondosa. Presença muda que testemunhou uma história.

Vida que passou, pessoas que a roçaram e respiraram junto a ela.

Eis que veio a pandemia e, em meio a tantas incertezas e aflições, sem ajudantes costumeiros, regava as plantas do terraço externo, mas a árvore estava no interno e, quando deu conta de si, tinha secado.

Primeiros pensamentos: prenúncio de algo ruim. Procurou revivê-la com cantos, súplicas, adubo, mas ia definhando, a cada dia folhas caíam, galhos ressecados, a árvore retorcida a torturava. Culpa, não soube cuidar.

Somente um galhinho resistia, corajoso. Chamou o jardineiro e replantou esse lateral, o resto tinha morrido, veredito.

Estarrecida, contemplava o vaso esvaziado, apequenado: quantos anos para crescer como antes, e isso se tudo desse certo. Ela não ia viver tantos. Em meio ao arrependimento, meditou.

Felicidades nesses anos passados existiram, e tantas dores, tantas perdas que jamais deviam ter acontecido; mas, distinta do retrato de Gray, a árvore parecia indiferente, lhe ocorreu se gostava dela, se lhe tivera apreço; era uma bela planta, viçosa, mas tinha um quê … de desarmonia? Escárnio?

Onde nela estavam os que se foram e deixaram um vácuo sem preenchimento possível ou imaginável, onde os membros despedaçados e invisíveis aos olhares do mundo? Onde a compaixão perante a dor que não alivia?

Agora sente ternura pela plantinha que restou e que fala de felicidades possíveis, que consegue rir e também recordar e honrar, que desperta uma oração de vitalidade renovada; perdeu a indiferença.

4 comments

  1. Dificil dar um recado depois do Sergio!

    Mas porque sera que a arvore da felicidade nao se alimenta da nossa felicidade que lhe outorgamos?>
    Porque nao deixá-la que viva frondosa, livre destas nossas recordações de felicidade que,nao foram?
    Será que é o nome com a qual rotulamos que nos faz crer em felicidade?

    Gosto do texto, poético, singelo. estou palpitando sobre uma visão de mundo apenas!

  2. Outro dia ouvi uma frase que ficou na minha cabeça: as palavras quando saem à luz adquirem um outro poder. O texto de Liliana é comovente, que outra palavra poderia usar: sensível, que fala à alma, enlevado? Uma conversa íntima com a vida que se permite seja escutada por todos. A humana condição de ser atravessada pelas forças do passado, mas encontrar a esperança no raminho que, replantado, avança ao futuro.

  3. A voz da dona da árvore parece refletir a da árvore.
    Quem fala?
    Aparentemente é a dona da árvore, mas há momentos em que esta fala, queixando-se da dona: ocorreu a quem se gostava…de quem? quem tivera apreço por quem? Quem tinha um quê de desarmonia, de escárnio? Vácuo, membros despedaçados, de quem?
    Esta mistura de falas cria um enigma a mais, que vai se enredando nas nossas mentes.

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