Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Eliane Accioly Até que a vida nos separe

Até que a vida nos separe?
por Eliane Accioly

Transarei loucamente com a desconhecida e nunca mais a verei. Só então estarei a salvo da fissura que me devora, entidade furiosa serpenteando em mim, prometendo-me liberdade se cumprido o ritual. Apesar de meus talentos com o sexo oposto, não consigo. Atrair estranhas, fácil. O problema? Falho. Mais forte que eu. Se as reuniões ganham sequência – conversas, refeição compartilhada troca de livros, compareço firme e correto. Ganho uma amiga que eventualmente se apaixona e perco o mistério, concorda? De onde tirei tal maluquice? Quem sabe do jardim de mulheres proibidas que rodeassem meu amanhecer? Lindas, macias ao toque, cheirando a pomar e romã – irmãs, primas, tias, madrinhas.

Patrícia? Ah, namoramos dos quinze aos dezoito até que, perdida de culpa, conta-me o episódio com o surfista do qual nem nome sabia – cansada de recusar-se ao assédio, simplesmente abaixa a calcinha e oferta-se de pé, na inclinação de uma palmeira, natural quanto a desrazão da natureza, e, contra qualquer intenção de sua parte, o que seria para ser indiferente, torna-a presa de insano anseio. Entro em inferno, deixo a moça e a cidade, saio do estado, abandono o país. Dez anos depois, regresso. Atrás de bigode e cavanhaque, amores, estudo e profissão, dinheiro ganho com trabalho, encolhe-se o prisioneiro cativo do velho turbilhão. A última e perfeita cena relatada com requinte de maldade pela antiga namorada, meu talismã às avessas, atormenta-me, mas não posso perdê-la. Não me deixa em paz a menina em meu delírio, adolescente eterna, sua imagem encalhando em minha miragem mais secreta.

Em andanças outras encontro Virgínia, e ultrapassado o estágio da amizade, torna-se minha companheira. Em nossa cama, porém, Patrícia dança, desavergonhada, e cede ao estrangeiro, ávida e estoica contra a áspera textura do tronco, como se rede, deusa dengosa e vingadora, ferida aberta. Confesso, com Virgínia algum tesão, sombras de ternura e a clara vontade de formar família. Transamos pouco, e, quando ela reclama, pergunto-me: – O que quer? Não está nos conformes? Não planejamos filhos, criá-los, e estar um com o outro até que a vida nos separe?

Uma noite fria, rumamos a um desses bares de solteiros para dançar, beber, conhecer outros e outras. Sentados ao balcão, somos abordados. Converso de sexo com a recém-chegada, imaginando se Virgínia faria o mesmo com o homem plantando ao seu lado. Em casa, desejo em vertigem, nosso leito, mar havaiano.

Minha mulher sempre sai com amigas, e, num entardecer, apronta-se com mais esmero. Fingindo ler o jornal, a sapeio. Arruma-se para um homem, a danada. O do bar? Um beijo enviesado e me deixa distraída, cabeça longe dos pés, cega de mim.

Demora-se. Dormia pacífico quando, esmorecida, escorrega entre os lençóis, acordando-me num arranco ao exalar um cheiro que não era o dela, odor de macho. Toco-a, molhada, entretanto, mais umidade que a dela própria. Puxo-a e nos amamos. Depois, chora em meus braços, frágil, murmurando:

– Tão bom ficar assim!

Afasto-a para olhá-la, dando-me conta de que, naquele instante, a almejada desconhecida encarna-se, corpo e presença – braços, pernas, seios, ventre, em mim arrolados – encrespo e crepito ao sabor de um sagrado.

Virgínia, a estranha, paradoxalmente, um pedaço de mim. Oceano náufrago, esta fenda.

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