Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Atração, Liliana Wahba

Há destinos que se defrontam marcando encruzilhadas para grandes acontecimentos e seus perigos inerentes. 

Ela, entre as criaturas favorecidas pela natureza, seria uma das escolhidas. Aliava a sua beleza singular à atitude decidida que a fizera conquistar o mundo; o fracasso era inexistente. Uma inteligência sagaz a conduzia para rumos que se revelavam certos, e combinava esses dons com uma afetividade e interesse pelas pessoas, uma sensibilidade provida de curiosidade, como que querendo desvendar interioridades e inserir-se nelas.

Tinha um alto cargo em uma multinacional e seus subalternos, clientes, concorrentes, rendiam-se a seu modo encantador de manter-se no poder, sem esforço; era algo natural, inevitável e certeiro e, ao mesmo tempo, gentil e atencioso.

Ele, fisicamente um irmão, de temperamento oposto, escondia-se da sociedade. Uma timidez aliada a desinteresse. O olhar esquivo e desajeitado em relacionamentos, adquiria perspicácia e agudez no laboratório de microbiologia que conduzia em um renomado centro de pesquisa, no qual já ganhara sucesso e louros profissionais. Um namoro de anos com uma colega pálida e introvertida o mantinha seguro nas relações.

Conheceram-se em uma premiação do laboratório. Foi ao evento somente porque o diretor insistiu em apresentar seu pesquisador principal à representante da empresa que iria patrocinar um novo produto.  Ela intrigou-se com esse jovem tão semelhante, mas diferente no porte e na atitude de recuo.

Em pouco tempo tornaram-se amigos. Um desejo silencioso parecia movê-lo a sair de seu encapsulamento e encontrou nela uma mestra ávida em ensiná-lo. Rapidamente avançou, aprumou-se, ergueu a testa e descobriu-se altivo, forte, usufruindo novos prazeres. Por sua vez, ela se orgulhava, gostava da sensação de ter promovido revelações; ambos expandiam sua juventude e se destacavam. Apaixonaram-se.

Uma viagem de navio iria comemorar a relação. Celebrava-se a alegria de viver e de desvendar futuros e promessas. Após o jantar foram ao convés, seguidos de olhares de admiração de homens e de mulheres. A cabeleira dela ondulava e o vestido longo de seda âmbar reluzia ao luar, as figuras altas e esguias pareciam imortais.

Nos olhos dela havia satisfação com o desabrochar dele e, nele, transpareceu um véu de descontraída malícia antes de empurrá-la com um gesto brusco e certeiro. Somente um grito e foi levada pelo mar. Os estilhaços da taça de champanhe atirada ao chão eclodiram o brinde de adeus.

Na cabine para onde foi levado, estava calmo. O capitão perguntou se a pessoa lhe tinha feito algum mal e qual teria sido a razão do ato e espantou-se ao ouvir que, pelo contrário, lhe fizera bem. Mas por que então?  Porque não suportava seu olhar de triunfo.

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