Este artigo é parte do Clube dos Escritores

Bettina Lenci vai ao cinema com seus netos:
somos jurássicos

Fui com meus netos – no estado de passagem da adolescência para a idade adulta – assistir ao filme Jurassic Park. Lembro de ter levado meus filhos – no estado de passagem da criança para adolescência – para verem o último dos três filmes sobre o mesmo tema. 

Ao final, enquanto descia, tropegamente, as escadas do cinema mal iluminado, de mão dada com o neto mais velho, pensava.

– Interessante esta versão atual! Os atores são os mesmos dos filmes anteriores, mas, curioso, eles parecem correr dos dinossauros com a mesma velocidade de 30 anos atrás. Então conclui: são dublês!

Envelheci junto com os atores. Estou esbranquiçada e enrugada e não tenho dublês para correr na esteira.

A vida, para alguns, parece curta demais, enquanto para outros é demasiadamente longa. Estas sensações dependem, é claro, do grau de saudades do passado, por um lado, e do presente e futuro, por outro. As passagens menos prazerosas parecem forradas com uma camada de algodão: não doem mais tanto. As lembradas com prazer, ao contrário, fugazes, chegam envoltas em vidro quebradiço.  Aqueles para quem a vida parece longa podem defini-la com a famosa frase: o tempo passa sem o algodão para proteger da realidade nua. O presente transparece desvestido da circunstância que o tempo promove: o envelhecimento. Aqueles para quem a vida parece curta demais são os que conseguem perseguir os resultados da mídia e do geriatra, os que acenam com as possibilidades de um presente e futuro, ausente o jurássico em nós. Paralelamente eles falam em sabedoria dos velhos. Não é verdade! A sabedoria não se coloca no lugar da juventude. A sabedoria apenas produz os pensamentos necessários para sobreviver com bom senso, sem as inconsciências praticadas e permitidas aos jovens. São as páginas amareladas da história de cada um que podem contar uma só coisa: o tempo passa e  estamos tentando camuflar sua consequência como o dinossauro que muda de cor quando ameaçado. Menciona-se pouco o esforço necessário para acreditar e, sobretudo,  aplicar, no processo diário do envelhecimento, a máxima mentira atualmente em vigor, de que o tempo não nos torna velhos.

Resumo assim o filme Jurassic Park:

Evoluímos há milhões de anos, transformamos pensamentos também há milhares de anos, renovamos a esperança de uma transfigurada juventude a cada dia. Estou cansada de correr atrás do Senhor do Tempo. Deixem-me envelhecer em paz!   

Um comentário

  1. Betina, relendo seu texto. É verdade. Não há sabedoria na velhice, dizer isso seria transformar o envelhecimento numa espécie de adolescência? Uma recompensa? Condição humana, ter conhecimento da morte. Embora só saibamos de fato, o que vivemos. Saber da velhice não é o mesmo que viver a velhice. Como saber da adolescência não é o mesmo que estar vivendo a adolescência. Que bom a gente, mulheres e homens artistas, aqui no Clube, podermos conversar aqui, do que estamos vivendo nesse tempo do envelhecer de cada um.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.