Catando feijão - adília belotti - o melhor dos 50 - fifties mais

Catando feijão

 

Muitas vezes inventamos lembranças ou passamos a acreditar na narrativa da Memória que é uma grande contadora de casos. Algumas das nossas melhores recordações são casos que a memória nos conta. Muitas vezes, examinado a memória com olhos secos de burocratas corremos o risco de banir lembranças, decretá-las falsas, excluí-las por falta de provas.

Meu conselho é: cate feijão! Separe as lembranças felizes e, guarde-as com reverência e devoção, sem expô-las à luz fria dos interrogatórios, das acareações, dos atestados e das expertises. Nunca subtraia nem se prive das boas lembranças, elas são alimento, refúgio, fio condutor. Para as outras: lixo e terapia.

E se a felicidade foi uma invenção? Uma falsa recordação?

Penso em Riobaldo: O que lembro, tenho.

Não importa se são fatos registrados, incontestes e sacramentados ou fantasmagorias, armadilhas da memória, vôos da imaginação, apropriação da história alheia, invencionices de menina levada ou mentiras de moça triste. Não importa se lembro de sonhos absurdamente reais ou imagens reais absurdas, não importa se os espaços da infância não foram tão grandes e se os amores não foram tão profundos. O que importa é o que eu lembro e é nesse território que os afetos, as dores e os sentidos se realizam. É nesse mar que navegam versos, vozes, cores de auroras estrangeiras, abraços, saudades. São camadas e dimensões de verdades, mentiras, registros, lembranças coletivas, vagas sensações. Todas minhas. Fundamentais, insubstituíveis, precisas, imprecisas, preciosas.

E daí, se a felicidade foi uma invenção? Invenção não é mentira, é vontade. Inventa alegria quem tem vocação. Isso é arte.

O que dura mais: a lembrança ou o fato? O que é mais meu: a lembrança ou o fato?

“Deitado no alto do carro de feno…com os braços e as pernas abertas em X … e as nuvens, os vôos passando por cima… Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terra guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?” (Feliz!, Mário Quintana).

Catando Feijão, por Hilda Lucas

Itu, 05 de julho de 2010

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A foto para inspirar eventuais catadores de feijões-lembranças, é de Fernando Stankuns, foi tirada no Mercado Municipal da Cantareira, em São Paulo, e recebeu o título ‘feijão mágico’

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