Este artigo é parte do Clube dos Escritores Blog Clube dos Escritores Liliana Wahba Coração Voraz

Coração voraz,
por Liliana Wahba

Inspirado em ‘A causa secreta’ de Machado de Assis

A sua proveniência era desconhecida; alguns diziam ser de outros mundos, outros, uma estranha mutação. Fato é que transmigrava de falecidos a viventes e, por vezes, na vida durante o sono.

Era um coração que batia forte com ávido apetite para maldades de toda índole. Pulsava em ritmo de sinfonia frenética inspirando atos cruéis e selvagens sem levar em conta laços de amor ou de fraternidade. O trânsito das paixões para o pensamento e a ação se fazia com a impetuosidade dos instintos, banindo reflexão, compaixão, ideais.

Diga-se que não era preconceituoso, desconsiderava etnia, classe social, nacionalidade, profissão, gênero e idade. Mantinha a equanimidade do acaso para a escolha de quem golpear. Quanto aos hospedeiros era difícil reconhecê-los em suas aparências, ora ferozes, ora dóceis.

Após inúmeras coincidências despertou a atenção de estudiosos: a psiquiatria diagnosticava sadismo, psicopatia; a religião promulgava ser alma condenada; a psicologia buscava traumas originários; a biologia cogitava desvios da evolução ou provável adaptação; a sociologia  confirmava anomia; a medicina intrigava-se com o transplante em corpos; a filosofia especulava a dissecção do mal.

Com respeito a medidas de proteção nada se descobria, era impossível detê-lo ou prever quando e como atacaria, era também impossível prever de que modo; as artimanhas possuíam variações aprendidas na história de todas as crueldades cometidas pelo ser humano durante milênios.

Uma mãe atirava seu bebê do alto da escadaria mesclando seu riso estridente ao choro de terror do pequeno, um velho espetava os olhos de sua esposa agonizando e acompanhava com satisfação seus estremecimentos,  uma mulher retorcia as mãos com prazer acariciando os cabelos de seu companheiro despedaçado, falido e em luto pela mãe. Incontáveis cenas de desespero e regozijo; o coração voraz não se preenchia, a cada ato desejava mais, insaciável e impiedoso.

2 comentários

  1. Impressionante a quantidade de maldades que podemos pensar. Eu teria mais milhões delas. Gostei Lili, seu texto produziu uma pequena catarse em mim. Serviu também para pensar em todas as nossas virtudes, ou seja do que seríamos capazes!?

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