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Coragem ou egoísmo?

 

Queridos leitores,

Hoje publico, na íntegra, uma carta que recebi de um grande amigo. Pedi licença para transcrevê-la, ao que ele assentiu. A carta fala por si. Espero que a apreciem, tal como se deu comigo.

Boa semana.
Sylvia

Querida Sylvia,

Tenho lido seus posts e vejo, com tristeza, o quanto de sofrimento acompanha as pessoas que simplesmente desejam amar. Sejam velhos ou moços, hetero ou homossexuais, amores jovens ou maduros, quanta angústia!

Resolvi escrever pois gostaria de dar o depoimento de um amor feliz, ou pelo menos, alguma coisa relativamente perto disto.

Já cheguei aos 75 anos e meu companheiro, aos 68. Estamos juntos há mais de 10 anos, depois de um casamento longo com uma mulher que me deu dois filhos e quatro netos. Essa história você já conhece. Sim, depois de viver casado por mais de vinte anos, me descobri apaixonado por outro homem! Você se lembra de minha angústia, do sofrimento, do espanto diante desse acontecimento tão inesperado!

Você se lembra dos ataques da família, dos amigos, dos pares de profissão. Você é testemunha do quanto lutei contra esse sentimento impróprio, inadmissível para um homem bem situado profissionalmente, com uma linda família, rodeado de amigos. Até cartas anônimas meus filhos receberam, lembra-se? Ofensas gravíssimas, “bichas velhas”, as mais leves.

Depois de um longo processo de muito sofrimento, de terapia individual, familiar, de casal, chegamos a um lugar pacificado.

Os filhos acabaram aceitando, e a partir deles, foi mais simples com os netos. Minha ex-mulher compreendeu, embora tenha ficado muito ferida. Mas creio que já chegou à conclusão que minha atitude jamais foi um ataque a ela nem ao amor que vivemos, por tanto tempo, e que nos presenteou com uma linda família.

Não posso dizer que vivemos em um mar de rosas, mas quem vive?

Problemas existem, não há happy end eterno para pessoas que habitam o mundo real.

Mas é uma vida verdadeira: com problemas, tentativas de superação, mais problemas, mais tentativas de superação, algumas melhor sucedidas que outras, mas assim é a vida, também cheia de momentos de alegria genuína.

Não me arrependo. Arrependido estaria se tivesse vivido infeliz, tornado os meus infelizes, pois acredito firmemente que só pessoas realizadas afetivamente podem tornar outras pessoas felizes.

Estou cansado de ver casais que estão juntos em nome de valores que não são os do amor, e sim de conveniências às vezes pouco corajosas.

Conhecemos alguns, não? Gostaria de deixar claro que essa não é uma receita, cada um deve achar seu caminho de realização, de respeito e de cuidado consigo próprio e com seus semelhantes.

Com carinho, do amigo.

 

Zemanta Related Posts ThumbnailSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com ou acesse sua página no Facebook: @SylviaLoeb

2 comments

  1. Estou profundamente tocada com esta carta
    Agradeço a você, Sylvia, pelo envio e agradeço, sobretudo, a teu amigo que me presentou assim
    Beijo,
    Janete Frochtengarten

  2. O mais bacana dessa carta é a ausência de categorias desnecessárias [cada vez mais desnecessárias, velhas e insuficientes: homossexual; heterossexual; bissexual etc], inaugurando assim um novo mundo em que pessoas buscam pessoas [que é o que acontece!].

    O preconceito turva o pensamento! Uma amiga minha, que, depois de casada com um homem por muitos anos, separou-se para se juntar a uma companheira [com quem está há muitos anos até hoje], me conta que o que mais doeu naquela época foram comentários de alguns amigos que diziam: “eu sabia, tava na cara”. Como se ela fosse ‘lésbica desde o início’ [existe isso??!]; e, pior, como se sua história de amor com o ex-marido fosse mentira.

    A verdade talvez seja que temos tantas categorias de sexualidade quantos habitantes do planeta!

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