Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Sylvia Loeb Cozinhas

Cozinhas,
por Silvia Loeb

A mesa no centro da cozinha, dia de aniversário, dia de festa.

Duas tigelas de vidro grandes, uma verde, outra amarela. Por dentro eram brancas. Minha mãe misturava a massa pro bolo dentro da amarela. A maior. Eu ficava na beirada da mesa, esperando pra lamber o resto que sobrava na tigela.

O pão-duro, era eu que passava, mas sempre deixava muita massa sobrando pra lamber. Minha mãe não gostava que eu comesse, dor de barriga, menina.

Ela misturava a manteiga com açúcar até fazer uma farofinha, depois punha 3 gemas e misturava tudo. Mas a parte boa era quando ela batia as claras com dois garfos juntos. Começava devagarinho, depois ia esquentando, aumentado a velocidade, sem perder o ritmo, o barulhinho dos garfos batendo no fundo da tigela verde.  Parecia que tinha um motor no punho! Pouco a pouco a nuvem branca ia aumentando e eu não acreditava quando minha mãe virava a tigela de cabeça pra baixo e a nuvem não caía.

Meu irmão fazia sanduiches de pão de forma cortados em quadradinhos. Punha manteiga, uma fatia de queijo, outra de presunto e empilhava; fazia uma torre bem alta, a base mais larga, o topo mais fechado. Era difícil, acabava desmoronando, os irmãos riam. Meu outro irmão, o caçula, não contava, ficava com a babá. Minha irmã mais velha, mandava na gente. A ela cabia a parte mais nobre: rechear o bolo com cobertura de chocolate. Não deixava ninguém lamber o pão-duro. O serviço era dividido, tudo deveria funcionar se eu não comesse massa crua até ficar com dor de barriga, se minha irmã não derrubasse a torre do meu irmão, se o caçula não esgoelasse, se a cachorra não entrasse na cozinha por entre as pernas da minha mãe, se ela não ficasse nervosa e não gritasse com a gente.

Tudo acontecia na cozinha da minha avó. Ela gostava de dar ovos crus pros netos. Um nojo. Bem vermelhos. Pra ela, os ovos eram vermelhos ou verdes. Os verdes eram os de gema pálida, que desprezava. Quebrava um ovo vermelho e com cuidado o colocava numa colher de sopa deixando escorrer a clara. Depois punha uma pitada de sal e chamava meu primo magrinho, que saía correndo. A cozinha era grande, meu primo era rápido, minha avó atrás, o ovo caía da colher, um nojo. Eu engolia o meu, com nojo e tudo. Uma imensa mesa encostada na parede, na outra o fogão, onde o leite ficava fervendo por muito tempo, em fogo baixo, até ficar espesso. O pão quente da padaria, o café cheiroso, a manteiga macia. O melhor café com leite da minha vida.

Uma babá tcheca, muito baixinha, gorducha, falante, sua especialidade era o strudel.  Todas as sextas feiras, depois da escola, as crianças iam pra cozinha excitadas com o espetáculo. A babá fazia uma bolinha de massa que cabia na mão e ia esticando bem devagar, pouco a pouco, numa mesa grande. Esticava e punha manteiga, esticava e punha mais pedaços de manteiga pra deixar a massa maleável, que ficava cada vez mais transparente e maior, até cobrir a mesa feito uma enorme toalha, quase alcançando o chão. Não podia rasgar, delicada que era, pois qualquer emenda a tornaria mais grossa. Neste dia, a Suzi, nossa cachorra, não podia entrar na cozinha; no lugar dela entrava nossa tartaruga. Ela ficava lá, quieta, a babá gorda subia em cima com os dois pés juntos equilibrando no casco.  A tartaruga não quebrava, nem se mexia.  As crianças aflitas não sabiam pra onde olhar: se pra a massa que podia rasgar, se pra tartaruga que podia quebrar. Quando finalmente a babá se cansava e descia da tartaruga, ela ia embora, bem devagar.

4 comments

  1. Sylvia, Cozinhas é demais, histórias encadeadas que contam a história de muitas pessoas, a mãe a avó as crianças a babá tcheca, a cadela a tartaruga histórias de uma família… Parece um filme… onírico

  2. Que beleza de evocações, sensações, imagens (algumas um tanto surrealistas ainda que retratadas da realidade) e a cozinha do afeto. Essa menina era observadora e mostrava curiosidade, já dava para prever o que se tornaria …

  3. Lili,
    As crianças veem coisas que os adultos pensam que são fantasias, mas estão todas lá. Quer a prova? Chama outra criança de testemunha.

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