Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos escritores de 50+ Sylvia Loeb Desculpe, dei o melhor de mim

Desculpe, dei o melhor de mim,
Sylvia Loeb

Foram selecionadas duas plantas da mesma família: uma grande, na flor da vida e outra, semente em botão, a vida germinando.

O interesse é saber como se comportam os sinais vitais de plantas verdes em câmaras escuras: a curva de desenvolvimento, a necessidade de água, a tenacidade de sobrevivência na sombra.  Condição necessária: restrição  de luz.

Receberão água tantas vezes quanto necessário.

Sábado

Início da pesquisa. Ambas se mostram saudáveis e expectantes. A presença de uma ao lado da outra gera alegria no observador, uma exuberante, a outra, puro botão.

A observação será sempre no mesmo horário.

Domingo

Ausência de sinais notáveis em relação ao dia anterior.

Quinta-feira

Embora a folhagem da planta adulta continue verde,  perdeu um pouco de brilho.  Pode ser apenas uma impressão. Necessidade de aprimorar o controle do matiz. Três folhinhas verdes, como os dentinhos dos bebês que rasgam a gengiva cor de rosa da criança, ferem a casca da semente.

Sábado

A folhagem verdejante da mais velha dá sinais de fadiga, apresenta leves estrias amarelas que, no entanto, já deixam cicatrizes na carne. A perda de energia é notável. Ainda uma bela planta, apesar de tudo. A mais nova, pura força, as pequenas folhas verdes firmes e espetadas, atentas. A vida irrompe.

Terça-feira

A grande perdeu uma folha. Decidiu-se regar com mais frequência. O desafio é calibrar a quantidade de água para manter o sistema em equilíbrio. O botão apresentou uma pontinha da folha manchada. Mau sinal. Também precisa de mais água. A ser dimensionada.

Sábado

O caule da mais velha está ficando acinzentado, as folhas amareladas, claros sinais de depressão. A vida enfraquece a olhos vistos. Rega generosa, mas tudo indica que não se trata de falta de água, talvez seja excesso. Padece de falta de luz. Deve-se manter o procedimento? Ainda é possível salvá-la? Interromper o experimento ou, em nome da ciência, sacrificar a vida?

A mais nova, ao contrário, mostra franca recuperação. A folhinha verde, agora fosforescente, já imunizada contra a ausência de fotossíntese. Deve estar se alimentando de fungos, de matéria morta engendrada por ela mesma. Estamos observando uma mutação em tempo real.

Terça-feira

A mais velha sucumbiu, provavelmente por asfixia. O processo de degradação foi muito rápido. Não se esperava tamanha velocidade. Seguramente plantas maduras banhadas de clorofila não suportam ausência de sol, achado que já era do conhecimento científico.

Então, por que replicar um experimento cujo resultado não traria surpresas?

O conhecimento científico dá-se por saltos, muitos ao acaso e apenas espíritos audaciosos são capazes de reconhecer fenômenos que passariam desapercebidos a um olhar menos apurado.

A ciência obedece a regras lógicas e objetivas até ser contrariada por uma nova ordem.

Mutações levam séculos para serem notadas. Tivemos porém o raro privilegio de observar uma em poucas semanas: a mutação da planta recém desabrochada deu-se em presença da planta madura.

O próximo passo será submeter plantas em botão ao mesmo procedimento anterior, porém na ausência de plantas maduras.

Teremos uma grata surpresa ou mais uma vida perdida?

Muito triste quando a audácia acaba em fracasso.

Cada amostra que morre é uma facada no meu coração.

3 comments

  1. cara Sylvia,

    Nesse momento, seu texto contem as verdades subjacentes ao que se está vivendo nesse momento.
    O desconhecimento, A comparação com a experiencia, a avaliação e análise diária, é o melhor caminho
    nao só para preencher durante este retiro mas quando voltarmos nao deveríamos esquecer que este é um bom traçado para a vida.
    Gostei muito.

  2. Parece que morremos com a planta, ou algo morre em nós, o brotinho novo se adapta, deixa entender que é protegido pela madura que vai morrer, ou acaso, a experiência dirá … tristeza

  3. Imagino que o que estamos vivendo esteja produzindo em nós estranhas mutações das quais não temos a mínima dimensão.
    Obrigada pelo comentário, Bettina.
    Beijo

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