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Dr. Yzuno

Dr. Yzuno olha as radiografias. Muito peso desde criança, né? Peso?! A coluna começou a entortar cedo, aqui de baixo -, aponta a base da coluna – , entortou, a cabeça caiu. Muita tristeza, separação, né? Hãhã, sim separação, duas… três… Aqui ficou preso o medo. O arco do pé abriu para dar mais equilíbrio, os dedos precisaram se agarrar, entortou tudo, estava se sentindo empurrada, puxada e não queria ir, né?

Clara lembrou da mãe, do pai, do peso da infância, dos medos, bolo na garganta.

Há três anos tive um tsunami no corpo, doía tudo, conta ela. A medicina chama isso de fibromialgia, diz o doutor Yzuno. Não sabe de onde vem, não sabe o que receitar.

Sessenta dias sem poder me mexer, as cobras não têm dor na coluna, queria ser uma cobra, me arrastar, apoiada, sem dor. Queria ser um peixe sustentado pela água.

peixes, praia, mar, água

Vários médicos, todas as terapias, muito dinheiro gasto com remédio e consultas, drogas que atacam o estômago, o fígado, o sangue, a cabeça, intoxicam. Agulhas de acupuntura espetadas, com choque, sem choque, centros de reabilitação, conversa de dor, coluna, insônia, ais… Não sei como esses profissionais aguentam tantas queixas.

Na segunda consulta Dr. Yzuno espetou Clara, não doeu. Depois de um tempo, voltou, espetou em outros lugares. Não doeu. Ela saiu do jeito que entrou. No dia seguinte, zero de dor, quatro dias sem dor, depois de oito semanas sem andar.

Clara abusou, começou a se mover normalmente, a dor, a dor! Não se brinca com corpo machucado.

Voltou no Dr. Yzuno. Onde dói? No mesmo lugar, melhorei muito, mas agora fiquei inquieta, durmo agitada. Dr. Yzuno espeta a cabeça de Clara, umas vinte agulhas, um ouriço. Sai da sala. Ela não se mexe, fica pensando que não deveria ter contado da insônia, a dor dói em outro lugar. Clara relaxa, dorme, acorda com calor, barulho forte da rua. Deve ter passado uma hora. Ou mais. O doutor não vem, esqueceu de mim? O tempo anda devagar, ela tenta se mexer, a dor na mão é forte, uma agulha espetada, abre a boca para bocejar, mais dor, outra agulha na base da orelha. Imóvel, Clara começa a ficar tensa. Levantar e arrancar as agulhas, pega mal. A dor na coluna se acentua, o pescoço dói, será que me esqueceu aqui, toda espetada?

Paciente, sou uma paciente, nunca sentiu tão forte essa condição. Levanto ou não? Dr. Yzuno abre a porta. Muito tempo, diz Clara. Ficou cansada? Fiquei. São 50 minutos. Custava avisar? pensa ela. Vai ao banheiro se vestir.

Um fio de sangue corre pela testa.

 

Sylvia LoebSylvia Loeb é psicanalista e escritora. Visite seu site em sylvialoeb.wordpress.com , acesse sua página no Facebook:

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One comment

  1. A dor de Clara, será que não está em recônditos escondidos como bolsões de dores contorcidas por sermos obrigados a sofrer , humanos que somos?

    O dr. Izuno é acupunturista ou mestre vudu?
    Gostei da descrição sobre a paciência de Clara e bem descrita a sua angustia deitada , espetada, durante 50m.
    bj

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