Este artigo é parte do Clube dos Escritores Clube dos Escritores 50+ Luciano de Castro Esquerdista roxa

Esquerdista roxa,
por Luciano de Castro

Há alguns anos, plantei uma goiabeira roxa da Malásia, que se desenvolveu rapidamente. Diferentemente da goiabeira brasileira, que gosta de crescer se contorcendo toda, a malaia foi se erguendo em linha reta. Muito pródiga também. Precocemente, começou a me presentear com grandes goiabas roxas, todas elas já devidamente habitadas por, pelo menos, um morador, igualmente roxo. Nunca me incomodei com bicho de goiaba. Não é um ser asqueroso como o rato ou a barata. É um bichinho até simpático, com o qual aprendemos a lição de abandonar o egoísmo e partilhar o alimento.

Desde criança, a goiabeirinha foi uma planta delicada, franzina. Para protegê-la dos fortes ventos que sopram no Planalto Central, amarrei-a numa estaca de madeira. Deu certo. Ela foi esticando seu tronco esguio e hoje está uma moça feita, com mais de 3 metros. Escrevi lá em cima que ela cresceu em linha reta para dizer que essa retidão não era perpendicular ao solo. Ela não teve culpa, coitada. A estaca devia estar inclinada e ela se viu forçada a acompanhar esse caminho imposto e diferente da sua índole. Aquela imperfeição me incomodava os olhos. Uma moça tão elegante e torta? Eu tinha que reparar a minha imperícia e dar um jeito.

Tentei de tudo pra endireitar a modelo magricela: escorei, coloquei novas estacas mais grossas, amarrei-a no muro. Nada funcionou. Quando lhe retirava as amarras, ela voltava à sua posição oblíqua. Parecia uma adolescente birrenta. Parecia querer me castigar por tê-la obrigado a seguir uma vida torta. Por fim, resignei-me; entendi e aceitei. Inclusive comecei a achar que esse jeito rebelde demonstrava a obstinação e altivez da minha menina. Bobagem. A obliquidade não era tão grande, e só era notada sob alguns ângulos. Além dos frutos, a malaia (naturalizada goiana) dava-me sombra e servia de poleiro para rolinhas e pardais. Era uma graça.

No último sábado, bem cedinho, olhei-a e ela me pareceu mais inclinada que antes. Talvez ainda estivesse sonolenta àquela hora da manhã. À noite houvera uma ventania pesada e ela deve ter gastado muita energia para se manter de pé. Agora estava economizando a sua resiliência e se entregava à força da gravidade. Permaneci na sacada, mirando-a com olhar paternal, quando me veio a frase cantada pelo pensador baiano Compadre Washington: pau que nasce torto nunca se endireita. É isso mesmo, compadre: goiabeira roxa que nasce e cresce torta nunca se endireitaria. Às vezes, poderia até entortar mais, endireitar nunca.

Na região onde nasci, em Minas, todo mundo chama árvore de pau. É pau grosso, pau fino etc. Pensei que Dra. Mayra Pinheiro se escandalizaria com a minha árvore. Pra mim, a goiabeira é feminina. Para a capitã cloroquina, que viu um símbolo fálico no logotipo da Fiocruz, ela seria um pau, roxo e com tendência à esquerda. Um horror. Por falar em CPI, lembrei-me de que era o dia 29 de maio de 2021, dia de manifestações contra o atual governo. Na hora, captei a mensagem: a minha geniosa goiabeirinha aumentara e mantivera intencionalmente a sua inclinação para a esquerda. Era a sua forma de protestar. Sorri, satisfeito, ao descobrir que a minha filha era uma esquerdista roxa.

3 comments

  1. Que goiabeira arretada.
    Um belo conto,contemporâneo,real,maravilhoso.
    Parabéns Luciano
    Abraços
    Suzana Gonçalves

  2. Adorei o conto Esquerdista Roxa, em tempos de CPI e capitã cloroquina, cheio de amor à goiabeira feminina e resiliente, que nunca vai endireitar… Parabéns, escritor!

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